domingo, 1 de janeiro de 2017

Um conto sobre a morte

De todos os contos que já escutei sobre a Morte, a minha preferida é a que a minha mãe me contou uma vez, quando eu era criança. Eu deveria ter uns quatro anos na época, guardei em minha memória como se tivesse escutado ontem.
Muito tempo atrás, a Morte perambulava pelo mundo, colhendo as almas cujo tempo na Terra havia se esgotado. Em uma de suas visitas, a um vilarejo longínquo, ela se deparou com um cenário deslumbrante. Um rio, árvores com flores como ela jamais havia visto, com flores e pétalas que reluziam ao brilho do luar, e águas tão translúcidas que refletiam a lua como um espelho. “Tudo parece mais bonito daqui”, refletiu a Morte.
Admirada, ela não queria ir embora daquele lugar – queria descobrir cada centímetro dele, o segredo de tamanha beleza, e contemplar aquele cenário todos os dias. Ela passou dias pensando, e durante esses dias, com muita tristeza, continuou a buscar e encaminhar almas para o seu descanso.
Então, lembrou-se dos anjos, e decidiu criar seus próprios ajudantes, que chamou de ceifeiros. Com o nascimento deles, a Morte voltou, radiante, para o local, e estabeleceu seu lar do outro lado do rio, para não conviver com os homens, e poder admirar em completa paz aquela paisagem onírica.
Passados alguns meses, porém, percebeu que a população do local matava os peixes, colhia as flores, derrubava árvores. Irada, atravessou o rio, com o intuito de colher todas as almas e ficar com a paisagem apenas para si. Porém, um de seus ceifeiros percebeu a situação, e convenceu-a a conversar com o líder do local e tentar um acordo.
O ancião e a Morte combinaram de que a população iria se retirar dos arredores do rio, e que todos estavam proibidos de tocar naquela paisagem novamente. E, assim, ela ficou com toda aquela paisagem intacta e para si, durante muitos anos.
Um dia, entretanto, uma menina, que não deveria ter mais de quatro anos, perdeu-se enquanto brincava e chegou às margens do rio. A Morte observou-a se aproximar e beber da água, então se aproximou para puxá-la para dentro e afogá-la. Novamente, o mesmo ceifeiro apareceu, e disse a ela que não era chegada a hora daquela criança, que ela não sabia do acordo, nem tinha más intenções.
Irritada, a Morte não se convenceu e apontou que não abriria nenhuma exceção ao acordo, ou correria o risco de mais pessoas encontrarem seu refúgio. Tranquilo, o ceifeiro lhe disse que, ao levar aquela criança, estaria levando consigo não apenas ela antes do tempo, mas um pedaço do coração de cada mãe do mundo.
Intrigada, a Morte pediu ao ceifeiro que explicasse, e ele explicou que, enquanto a Morte admirava aquele pequeno paraíso, haviam vários outros lugares no mundo para se descobrir, e contou-lhe de cataratas, cavernas, florestas pelos quais passou para levar aventureiros, mas que nenhum lugar lhe chamou tanta atenção como o coração humano, especialmente o coração de mãe.
A Morte ficou surpresa, mas não compadeceu: afogou a criança no lago e eliminou aquele ceifeiro, que ela considerou subversivo. Porém, pela primeira vez em anos, abandonou aquele espaço para investigar de onde ele tirou tal absurdo.
Em um primeiro momento, estranhou o mundo, pois passou muito tempo isolada em seu paraíso particular. Porém, quando acostumou-se novamente com os homens, tentou olhar além deles e pode ver que o ceifeiro não mentia: dentro do coração de cada mãe havia uma pequena lacuna, como se tivesse sido furado com uma agulha.
Curiosa, observou que as mães amavam tanto que seus corações compadeciam também pelos filhos dos outros, e que, quando aqueles filhos partiam, uma parte delas partia junto. A Morte, então, voltou, disfarçada, ao vilarejo, e perguntou sobre a mãe da criança, ao que descobriu que faleceu, no mesmo dia da filha, de parada cardíaca.
Sentindo-se culpada por ter arrancado a vida da criança, de um de seus ceifeiros e daquela mãe, a Morte procurou o ancião para abrir mão da trégua. Como sinal de arrependimento, foi pessoalmente buscar as almas em seus locais de descanso para levá-las de volta à Terra.
Ali, percebeu que a mãe e a filha brincavam juntas, e estavam em paz com seu destino, e que o ceifeiro estava em um campo vazio. Aproximou-se dele e ofereceu para que voltasse, mas assustou-se com a negativa. O que faria em um campo vazio como aquele? Com isso, o ceifeiro pediu à Morte para que olhasse para cima, e ela se encantou com a quantidade de estrelas, que reluziam como diamantes.
“Não são estrelas”, explicou o ceifeiro, “esses são os pedacinhos do coração de cada mãe. A cada noite esse céu cresce e fica mais e mais reluzente com o amor delas pelos filhos. Nesse amor é onde eu encontro o meu refúgio”.
Compadecida, a Morte voltou à Terra, mas nunca mais conseguiu olhar a vida da mesma forma. Recolheu todos os seus ceifeiros, e passou a ir ela mesma buscar todas as almas, para não perder mais do mundo.
À noite, subia no ponto mais alto de cada cidade para ver o reluzir do amor de todas as mães. A cada criança que levava, ia pessoalmente visitar aquele ceifeiro, apenas para contemplar o céu, e surpreender-se com a forma como ele parecia aumentar cada vez mais e mais, para receber todo aquele amor.
Então, a Morte passou a se emocionar, e eventualmente entendeu que passou a amar também. Ela criou uma janela, que permitia às mães olhar por seus filhos que ficaram no mundo dos vivos, e beijar-lhe a testa antes de dormirem.
Poucos dias depois que minha mãe contou essa história, seu coração, que sempre foi grande demais, não deu conta de tanto amor e decidiu parar. E eu fiquei me perguntando se ela olhava por mim, pela janelinha que a Morte criou. Às vezes, jurava que sentia seu beijo em minha testa antes de dormir.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Além da vida


Por um instante, quando senti o forte cheiro de incenso daquela sala, me perguntei o que estava fazendo ali. Mas foi um instante tão pequeno, porque eu realmente sabia o que me levou até lá. Só havia uma coisa que me levaria tantos quilômetros longe de casa.
Mais de quinze anos sem religião, sem fé. De repente, ali estava eu, em minha quinta conversa durante o mesmo mês. Procurando respostas que eu sabia que não encontraria em outro lugar.
Educada em família católica, por parte de pai, e evangélica, por parte de mãe, eu sabia que eles acreditavam em céu e inferno. Bem e mal, preto e branco. Mas voltei, mesmo assim. A princípio, buscava um propósito para mim, depois de um ano tão vazio.
Então eu soube do acidente. Sempre me perguntei por que justamente eu estava viva, enquanto tantas pessoas precisavam estar ali, mais do que eu. Fariam mais do que eu. Pessoas com doenças terminais. Pessoas que morreram subitamente. Pessoas tão boas. Mas não, quem continua aqui sou eu.
Nunca gostei de conversar sobre essas coisas com os outros. Elas tinham a sensação de que precisavam me consolar, ou dizer que sou muito pessimista. Ou competir. É da natureza das pessoas competir. “Você acha, com 20 anos, que não tem um propósito? E eu, que tenho mais de 30?”. Sim, tem razão, agora que você falou, melhorou tudo por aqui, obrigada.
- Helena, seja bem vinda!
Ela falava baixo, tão serena. Tinha olhos grandes e azuis, era magra, miúda, a cabeça raspada, e usava aquelas roupas diferentes. Era um robe? Não sei como chama. A pequena sala da casa de madeira tinha apenas um sofá, para receber as visitas, que parecia ter tempo demais para ter sido comprado por ela. Em frente ao sofá, uma estante cheia de livros, e algumas imagens de Buda.
O cheiro de incenso consumia aquele espaço minúsculo, com a janela fechada, e meus olhos encheram de lágrimas enquanto eu segurava para não tossir e nem espirrar. “Não seja rude, Helena. Mantenha o foco, Helena. Pelo amor de Deus, Helena”, eu repetia mentalmente.
- Você está bem?
Não adiantou, nunca soube disfarçar. Mas bem que eu prossegui tentando.
- Sim – comecei a tossir. Droga. – Tem sido muito difícil pra mim.
O quanto aquilo poderia ser ridículo? Ali mais uma resposta que eu buscava na religião: como parar de fazer de cada momento da minha vida um episódio de autodepreciação?
Ela sorriu, apagou o incenso, abriu a janela e me convidou para me sentar.
- Desculpe, já estou acostumada. Aceita uma água?
- Não, obrigada. Obrigada por me receber. – eu sorri, constrangida.
- Você disse que está procurando por respostas, mas eu não sei se tenho a resposta que você procura.
- Eu queria que você me explicasse mais sobre o budismo. Eu não gosto de confiar na internet para essas coisas.
E, assim, ela explicou, tão calmamente. Suas respostas, de fato, não ajudaram, e talvez nem minhas perguntas foram as certas, mas ela me fez colocar em xeque todo o meu jeito de ser. O meu estresse, o meu materialismo. Toda a superficialidade da minha rotina.
Onde eu estudei, havia três tipos de pessoas. As que nasceram em berço de ouro, filhas das pessoas mais influentes da cidade, que já sabiam que herdariam tudo. As bolsistas, que tinham sua permanência ali assegurada pelo sacrifício de toda a sua juventude em detrimento de estudar o dia todo. E aquelas, como eu, cujos pais se sacrificavam em jornadas de trabalho extenuantes para mantê-los ali.
Sempre olhei as coisas pelo ângulo errado. O ângulo que me comparava com os outros e me fazia perder sempre. Eu não seria materialista se tivesse entendido o meu lugar, se tivesse sido capaz de ver o cansaço no rosto deles quando chegavam em casa. Não, eu queria o lugar que nunca foi meu. Eu queria viver como aquelas garotas que pareciam ter saído de uma revista de moda, de um filme da Disney, de qualquer série adolescente que estivesse em alta.
Passei tantos anos tentando. Tantos anos tentando tanta coisa que não agrega. “Dessa vida a gente não leva nada”, dizia o pastor que a minha mãe adorava. E a Bárbara, que vive naquela casinha tão pequena, com tão pouco, e mesmo assim não sente falta de nada? Tão plena. “Felicidade não está nas coisas que a gente tem”, repeti pra mim.
Nos dias seguintes, estive mais calma por fora. Por dentro, eu estava desesperada por respostas. Me vinha à cabeça aquele carro capotado, e eu conseguia lembrar de cada amassado, do vidro quebrado. Como eu poderia saber?
Poderia ser uma ilusão. Eu nunca perguntei. Como eu faria, depois de tanto tempo, quando a vida nos levou para caminhos tão distantes?
Eu pensava que a vida era injusta comigo. Depois de Bárbara, percebi que injusta era eu com a vida. Achava que a vida me levou para um caminho tão ruim. Quem se atraiu para lá fui eu, e continuei em frente mesmo quando percebi que as luzes foram se extinguindo até acabar. Então, chorei no escuro porque não via o caminho de volta.
Será que haveria, ali no escuro, um cheiro de incenso tentando me guiar de volta? Uma luz que brilharia se eu acreditasse? Uma mão que me guiaria se eu pedisse? Absolutamente qualquer coisa que pudesse me ajudar?
E, assim, fui parar no centro espírita. Era irônico a garota que tinha medo de fantasmas ir parar ali. A garota que dizia que não acreditava em Deus, louvando com os evangélicos, orando com os católicos. A materialista, conversando com a budista. Tudo era irônico.
Depois de um ano totalmente vazio, confesso que pedi, durante várias noites, para ter uma vida diferente. Para ser melhor, fazer melhor para os outros, para mim. No chão, o contorno dos meus joelhos. Nos meus joelhos, o afundado de quem passou 20 minutos por dia, durante um mês inteiro, ajoelhando ao lado da cama.
E lá estava eu, vivendo totalmente diferente. Não da forma como eu queria. Não pelo motivo que eu queria. Mas, definitivamente, singular.
Talvez tenha havido uma falha na comunicação, depois de tantos anos sem conversar com Deus. Sei que ele me entendeu, porque é Deus, mas talvez eu não o tenha entendido. E talvez esse seja o preço por dizer, durante tantos anos, que não acreditava nele.
Ajoelhada no escuro e no silêncio do meu quarto (salvo pelo barulho da chuva que caía lá fora), eu chorei e pedi perdão. Pedi que ele me guiasse de volta para a luz. Foi engraçado porque, naquele momento, caiu um raio. E eu, ajoelhada do lado esquerdo da cama, vi a porta à direita, com o interruptor ao lado.
Eu me pergunto se Deus é literal assim com todo mundo. “Está procurando a saída, a luz? Está bem aqui, é só andar um pouco. Cuidado para não bater o joelho ou o dedo do pé na ponta da cama”.
Acompanhei o culto espírita sem fazer nenhuma pergunta. Sem me manifestar. Tive vergonha do meu pensamento infantil. “Tomara que nenhum espírito estranho venha para o meu lado”. Ele não era estranho, mas veio.
- Helena?
- Sim.
- Seu avô disse que você está desviando do caminho.
Sim. Quatro anos antes, ele me disse a mesma coisa, em um sonho. Naquela época, eu ainda sentia a presença dele, como se ele cuidasse de mim. Conheci uma espírita que confirmou: sim, ele cuidava. Depois daquele sonho, porém, não o senti mais. Sempre pensei que ele havia transgredido uma barreira por mim: ele não podia ter me contado onde eu estava no meu caminho, mas ele tentou me ajudar, ele contou. E eu não fiz nada além de continuar me perdendo.
“Pare de transformar cada minuto em um episódio de autodepreciação”, repeti pra mim.
- Ele disse isso antes. – Respondi. – Eu estou procurando alguém.
- Eu sei, um espírito recente. Mas ele está bem, está sendo encaminhado. Você pode rezar por ele.
Rezar. Eu não queria rezar. Queria conversar, abraçar, voltar no tempo e impedir que entrasse naquele carro, naquele dia, naquela estrada. Para impedir que ele morresse, eu precisaria voltar tanto tempo. Nos perdemos há tantos anos.
E lá fui eu, procurar no hinduísmo, mas me perdi em deuses demais e sentidos demais. Talvez a pessoa não soubesse explicar, talvez eu não soubesse entender.
Não achei a resposta novamente, ou pelo menos não a que eu queria, mas o templo ficava afastado, na BR, e encontrei o rio em que meus pais foram uma vez quando eu era pequena. Aquele lugar que parecia um paraíso. Tanto que não percebemos a quantidade de insetos que havia, até que sentirmos a coceira das picadas e perceber que elas estavam por todo o corpo. Levou mais de um mês para nos recuperarmos, e prometemos que nunca mais voltaríamos.
Mesmo assim, caminhei até lá, como se fosse um ímã, sendo atraída por um polo diferente. Talvez essa seja a analogia perfeita. Ele sempre foi o polo positivo, e eu o negativo. Sempre tentando me equilibrar enquanto eu o puxava para baixo. Talvez por isso tenha seguido outro caminho, tão longe de mim. Mas, se nos víssemos, será que nos atrairíamos?
Eu me arrependo com muito mais frequência do que deveria. Quando soube do acidente, entrei em desespero. Quando soube que aquele outro caminho o levou àquele desfecho. Então eu percebi que, no meu sonho, era ali que o carro caía. E ainda havia cacos de vidro em meio às pedras, misturados com a terra.
Meu coração disparou e eu senti que iria desmaiar, mas me contive. Não ali, não sozinha. Mas, ao mesmo tempo, eu tinha a sensação de que não estava sozinha, e aquilo me acalmava e me desesperava ao mesmo tempo.
Nunca gostei de pensar sobre a morte, porque tenho a mesma crença dos meus pais, de que vamos para o céu ou para o inferno. E eu nunca me senti digna do céu. Ao mesmo tempo em que eu me perguntava por que eu vivia enquanto outras pessoas morriam, eu não desejava mesmo morrer.
Se bem que eu iria no lugar dele. E iria no lugar da mãe de qualquer uma das quatro pessoas incríveis que eu conheço, para que elas não tivessem que sofrer o que sofreram nos últimos anos. Eu não sou capaz de aliviar o sofrimento delas. Minha vida é tão finita diante desse mundo.
Na sombra, perto de uma árvore que se torcia em direção à água, eu o encontrei. Do mesmo jeito que estava no meu sonho. De alguma forma, eu sabia que não podia tocá-lo. Que ele estava ali, mas pertencia a outra dimensão. Qual religião acertou? Eu não sei. Sempre acreditei que todas acertaram, e que cada um escolhe o seu jeito de ter fé.
Mas a questão é que ele estava ali, naquele momento. Olhando pra mim, como quem sabia tudo que eu iria dizer. E eu disse. Pedi que ficasse comigo, que não fosse embora. Com o coração tão apertado que parecia estar sendo esmagado. Com aquele nó na garganta e a luta para conseguir falar com calma, sem chorar. Bárbara, parece que não aprendi nada com você.
Não sei por que o pedi que ficasse. O acidente já tinha acontecido. Ele não pertencia mais ao meu mundo. Mas eu o pedi que ficasse, como se pudesse fazê-lo. Como se pudesse reverter tudo e me ligar de manhã dizendo que sim, que ficaria, que nunca mais iria embora. Mesmo se pudesse reverter tudo, não voltaria pra mim. Vivíamos tão longe, como estranhos.
Ele me ouviu implorar até que não fui capaz de conter mais as minhas lágrimas e comecei a chorar. Chorar, soluçar, e eu nem precisava de um espelho para saber que o meu rosto estava todo vermelho. Meus olhos ardiam, meu rosto ardia, e eu não sabia se era o sol, que até aquele momento eu ignorava, ou se realmente uma pessoa é capaz de sentir tanta coisa a ponto de explodir. Quando eu chorei, estiquei o braço na direção dele, esperando que segurasse a minha mão. Eu realmente esperava.
Naquele momento, eu não parei para pensar no fato de que eu realmente me senti acompanhada. Depois de tantos dias ajoelhada ao lado da cama, sentindo que estava conversando com a parede do meu quarto, quando o que eu queria realmente era conversar com Deus. Não senti a presença de Deus, mas senti a presença dele. E foi tão forte quanto eu imaginei que seria.
Eu estiquei o braço na direção dele, e ele sorriu pra mim. Sorriu, e por um segundo eu pude acreditar que ele estenderia a mão de volta. Meu coração batia tão forte que parecia que iria atravessar o meu peito. Se atravessasse, eu saberia onde encontrá-lo. Eu sempre soube a quem ele pertencia, mas neguei durante tantos anos. Tantos, que ficou tarde demais.
Por um segundo, me enchi de alegria, como se eu fosse um copo e a alegria fosse água, completando. Alegria, esperança, fé, tudo ao mesmo tempo. Como se eu nunca tivesse ficado triste. Como se eu não fosse Helena, a pessimista.
Então, tão rápido como ele sorriu, ele desapareceu. E eu não pude conter o meu corpo, que desabou no chão, de joelhos. Por que?
Eu queria gritar, mas quase engasgava de tanto soluçar. Queria chorar, mas era como se já tivesse gasto todas as minhas lágrimas. “Chorei demais”, concluí. Ali, ajoelhada diante do vazio, notei que nenhum caco havia me cortado. E que, naquela árvore contorcida, haviam lindas flores roxas, tão pequenas. Ou talvez fossem rosadas. Meus olhos estavam embaçados, e ardiam, e o sol batia sobre eles.
“Deus é bom”, disse o pastor, na última missa que fui. “Deus não é bom, Deus é muito bom”, corrigiu o pastor, em seguida. E eu entendi que ele tinha que ir, e que eu precisava ir também, mas tínhamos que ir para caminhos diferentes. Caminhos que, naquele momento, não podiam se encontrar.
Eu ignorei tantos sinais de que deveria deixá-lo ir, mas por isso eu não me culpo. Porque, por isso, reencontrei minha fé. Por isso, conheci a Bárbara, e conheci outras pessoas incríveis, que vivem tão diferentes de mim, que vivem em paz com o próprio coração.
Então eu pude me levantar e voltar. Pude começar a viver diferente, por mais que isso não signifique nada do que eu imaginei. Permanece bom. E será um Feliz Ano Novo.

domingo, 6 de dezembro de 2015

Sobre sentimentos idiotas

Depois de você, eu prometi a mim mesma que não seria mais sentimental, porém, cá estou eu, um ano depois do dia em que nos conhecemos, escrevendo um texto idiota, sobre sentimentos idiotas.

Você entrou na minha vida pouquíssimo tempo depois que o meu namoro acabou. Quando eu achava que não iria querer nada por um bom tempo. Na primeira vez que conversamos, era como se fôssemos velhos amigos. Na primeira vez em que saímos eu genuinamente gostei de você, de como você me fazia rir, como eu podia ser eu mesma perto de você, como você entendia o meu senso de humor estranho e eu não tinha aqueles momentos incômodos que eu tenho com todas as outras pessoas.
Eu não queria sentir, criar expectativas, mas naquela época Blank Space era um hit do momento, e quando eu ouvia era inevitável lembrar você. “I’ve got a blank space baby, and I’ll  write your name”.
Quando eu pensava em você, pensava em te dar um abraço bem longo e um beijo no pescoço. Pensava que gostava de andar de mãos dadas com você, como quando fomos a pé até a minha casa. Era uma maré me arrastando sem eu perceber. 
Mas não era o que você queria. Sabe, li um texto sobre o filme 500 dias com ela, e talvez eu seja como o Tom, afinal. Logo você começou a me enrolar. Marcava de sair, tinha um imprevisto, desmarcava. Começava a responder minhas mensagens, de repente ficava calado por dias, no meio de uma conversa. Sempre era eu quem voltava e insistia - justo eu, que odeio puxar assunto com as pessoas.
Talvez eu tenha ficado mais magoada com tudo o que criei em minha cabeça e foi frustrado do que com você, propriamente. Você não podia simplesmente dizer que não queria mais sair comigo, ao invés de me ignorar e me enrolar?
Você me disse que gostava de mim e isso te assustava, que você não conseguiria levar adiante. Um lado meu acreditou, outro não. O que acreditou ainda tentou, mais uma vez, te chamar pra sair. E mais uma vez você ignorou. Até hoje a mensagem está lá, a última que te mandei. Ainda agora, meses depois, eu olho para ela e sinto uma pontada (e lembro de Blank Space "It will leave you breathless or with a nasty scar").

O problema é o que me tornei depois de você. Antes eu acreditava cegamente no amor. No amor dos filmes: “Love is like oxygen… love is a many splendored thing, love lifts us up where we belong, all we need is love”. Aí meu ex cravou a faca, e você torceu-a em meu peito.
 Depois de você, eu não queria acreditar mais. Eu não gostava das minhas conversas, dos meus encontros. Não me importava com eles, queria que fossem embora. Não quis sair de novo com ninguém. Tudo era estranho, eu não me sentia à vontade. 
Eu sei que eu criei tudo isso, que eu criei, cedo demais, um "eu e você" que não existia. É que você me fez bem e, naquele momento, eu realmente precisava.
O problema é que, nisso de não querer mais sentir, eu dispensei alguém que eu realmente queria, e que me queria também. Eu tive medo. Eu pensei em tudo o que poderia dar errado. Eu me convenci que aquilo era a coisa mais idiota do mundo. Uma hora, alguma coisa o faria ir embora. Pra quê começar?
Então eu menti que não sentia nada, e ele foi embora. E eu fiquei aqui, com o meu espaço em branco.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Coisas de despedida

Havia menos de metade dos convidados a uma da manhã, quando acabou a festa de despedida. Nosso voo seria às seis e deveríamos sair de casa quatro e meia, mas nenhuma de nós se importou, teríamos tempo de dormir no avião. Por fim, restamos apenas nós quando Anne apontou para algo que estava atrás de mim. Virei.

- Líliam?
- Ah, oi Chuck. 

Charles McGregor foi um garoto dois anos mais velho que eu, com quem eu fiquei pela primeira vez em uma festa. Eu tinha doze anos na época, estava na sexta série e ele no primeiro ano do ensino médio. Era óbvio que ele gostava de mim antes e também depois daquele beijo, mas eu, que desde os sete anos sou quase impossível de me apegar, não conseguia gostar dele.

Apesar dele aceitar ficar comigo sem compromisso e de aceitar também o fato de que eu não gostava dele, a verdade é que achei nossa história muito triste. Eu me sentia uma rosa repleta de espinhos, nos quais ele passivamente aceitava furar-se. Estranho, ver alguém sofrendo e saber que é por sua causa.

Um dia, para fazer ciúmes, ele disse que estava cansado da situação e que ficaria com outra pessoa. Mas eu não o procurei. Também, por orgulho, ele nunca voltou, até aquele momento.

- Você não vai voltar pra cá?
- Nas férias, provavelmente.
- Digo, morar.
- Ah, não.
- Que pena.
- É.

Eu sabia que ele ia me beijar e não resisti. Quando estava sozinha com Anne e ela me perguntou o que houve eu respondi, sinceramente:

- Coisas de despedida.

sábado, 27 de outubro de 2012

Alma Maligna



Ana acordou com várias coisas em mente. Não era bonita, nem passava perto de academias. Naquele dia, porém, tinha separado uma máscara, lentes de contato coloridas, peruca e uma fantasia de Resident Evil - que ficava ridícula nela, mas era o único jeito de entrar com revolver e canivete na festa. Talvez tivesse a alma maligna. O que importa é que ela tinha tudo planejado para aquela noite.

Chegou na festa e, conforme imaginou, não teve problemas ao passar pelos seguranças. Em uma festa a fantasia, tudo tinha um ar de "coisa a mais". À meia noite, luzes vermelhas acenderam em todo o local e uma voz macabra - mas que perdeu seu ar de terror, uma vez que os alto-falantes eram visíveis - anunciou: "Que comece a noite do terror". A música eletrônica começou forte.

- Imagina o diabo numa salinha, falando no microfone. - Milena riu com as amigas.

Milena tinha belos olhos azuis e o cabelo longo, liso e tingido de preto. O nariz era levemente turvo, tinha silicone demais, maquiagem demais, e não se preocupava com muita coisa além de passar horas na academia. Não que algum homem se importasse. Naquele dia, ela acordou com suas futilidades de sempre: malhar, se arrumar e, depois, vestir uma roupa curtíssima e ir para mais uma festa, beber e se achar com suas melhores amigas. E era justamente o que estava fazendo.

Ana entrou no banheiro e colocou a máscara. Observava a festa de forma sádica. Imaginava o homem fantasiado de lobisomem se alimentando dos restos de um corpo caído no chão, arrancando a mão em uma grande dentada. A mastigação emitia um ruído de ossos se quebrando que seria extremamente desagradável para qualquer pessoa normal. Ana queria sorrir, mas apenas curvou um pouco o canto da boca, aprovando a própria construção.

Pouco depois, Milena se afastou das amigas e caminhou até o bar, para pedir o terceiro drink da noite. Estava lá há vinte minutos, mas processava bebidas muito rapidamente. Achava que isso mostrava superioridade. Ana se aproximou dela, imaginando que uma lixa invisível cairia bem naquele momento. Milena começaria a gritar porque seria esfolada viva, misturando o vermelho de sua carne e de seu sangue.

Por um instante, considerou desistir do plano todo, apenas para arrancar cada pedaço de sua pele com o canivete. Restabeleceu-se, porém, seguindo na direção daquela menina esnobe. Delicadamente, passou a mão no cabelo dela e sussurrou em seu ouvido.

- Você é linda.

Conhecia aquele ego enorme. De fato, Milena virou e sorriu. Por um instante, apenas mediu Ana, enquanto dizia lentamente "Obrigada". Depois, se aproximou e deu-lhe um beijo no pescoço, o que fez Ana lutar para segurar a ânsia de vômito. Se apenas pudessem ver sua alma, saberiam que é maligna.

- Que cheiro bom.

Milena beijava o pescoço de Ana, subindo em direção à sua boca. Quando se aproximou, Ana virou o rosto, segurou sua mão e sorriu, convidando-a.

- Vem.

sábado, 13 de outubro de 2012

Hipermetropia

- Acabou.
Eu tentava enxergá-lo, mas não conseguia. Aquele rosto, que um dia já fez meu coração disparar, agora resumia-se a um borrão.
- Acabou. - Repeti, vazia.

Tentava vê-lo, mas não conseguia. Por que estava tão embaçado? Minha cabeça doía, como se eu estivesse há horas debruçada sobre livros intermináveis. "Minha vista está cansada", considerei. Mas por que?
- Então, é isso.

Ele não fazia perguntas, apenas afirmava, como se me dissesse "Você não tem outra escolha". Até sua voz parecia distorcida. Por que meus sentidos estavam cansados?
- É...

Não consegui completar a frase. Estava deixando um detalhe passar. Ele deu as costas e ia embora, enquanto eu tentava lembrar o detalhe. Então notei aquelas cinzas. De onde vieram? Eu sequer vi as chamas que destruíram tudo.

Minha vista está cansada, é isso. Eu a forcei demais - forcei todos os meus sentidos - enquanto olhava para as cinzas e tentava ver o que, um dia, foi o nosso amor. Em minha hipermetropia, sequer percebi quando tudo desabou.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Sonho

Estava deitada na grama e o sol forte irritava meus olhos. Uma mão posicionou-se em frente ao meu rosto, protegendo-o daquele brilho ofuscante.

Meu coração disparou, como sempre, mas naquele momento achei adorável. Matheus estava sentado ao meu lado, apenas olhando para mim, com um sorriso idiota, como se eu fosse algo precioso.
- Melhorou?
- Sim, obrigada.

Então ele se aproximou e empurrou a perna debaixo da minha cabeça, forçando que eu a erguesse e deitasse em seu colo.
- Delicadeza. - Eu ri.
- Já passou seu tempo de ser rude comigo.

Fiquei em silêncio. Tivemos tantas fases ruins, fomos imaturos, arrogantes. Ali estávamos em paz, um aceitando a presença do outro. Eu aceitando o que sentia por ele. Só poderia ser um sonho.

Olhei para o lado. Estávamos perto da margem de um lago imenso. Na outra margem, a quilômetros de distância, eu avistava muitas árvores.
- Que lugar lindo.
- Escolhi pra combinar com você.
- Aham...

Ele colocou o indicador em meus lábios antes que eu pudesse dizer outra coisa, então se aproximou e me beijou. Aquela posição devia ser desconfortável pra ele, mas não parecia se importar. Estranho, ver alguém como ele apaixonado, e justamente por mim. Mas eu precisava admitir que...
- Matheus?
- Oi?
- Eu te...

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Chapeuzinho Vermelho - Parte 2

Foi difícil adaptar sua visão à escuridão do bosque. Poderia ter tomado o dobro do tempo usual, e o forte cheiro de bolor também a incomodava. Ela entrou devagar, observando atentamente entre galhos e no chão, em busca de seu delicado envelope. Em poucos passos toda claridade havia se extinto daquele lugar. 

Cíntia passou a se preocupar. Sua respiração se tornava mais sofrida com o odor fortíssimo de bolor, a escuridão não lhe permitiria encontrar o envelope mesmo que estivesse em sua frente. Quando virou para dar meia volta, seus pés enroscaram em um galho e ela caiu. O barulho quebrou o silêncio, até então predominante no bosque.

Foi caída no chão, tentando desenrolar sua perna da armadilha oculta nas trevas, que escutou. Era uma sequência de uivos longos, que pareciam anunciar sua presença, talvez até comemorá-la. Sentiu um calafrio percorrer sua espinha, suou frio. Não parecia estar perto, nem longe, o que a apavorou ainda mais. Exultou-se para tentar arrebentar os galhos que a prendiam, então percebeu que estes possuíam pequenos espinhos: perfurou toda a mão esquerda.

O líquido quente escorria por sua mão, mas ela conseguiu se desvincilhar dos galhos. Queria gritar, mas estava paralisada pelo medo. E se gritasse e o lobo a encontrasse mais rápido? Tentou correr, mas sua falta de sentidos pesava. Além disso, havia o pânico: ela não pensou para que lado correu, apenas o fez. Poderia estar adentrando ainda mais no bosque, naquele exato momento.

Era tão pequeno, aquele bosque escuro. Mal cobriria uma quadra. Naquele momento, porém, parecia tão imenso quanto o mar. Como jamais ouvira um lobo uivar, durante todos aqueles anos? Talvez porque jamais alguém entrara ali antes - o lobo devia estar faminto, e finalmente a comida chegou em sua toca.

Chapeuzinho Vermelho - Parte 1

Apesar do belo sol que raiava naquela manhã de terça-feira, Cíntia usava um capuz vermelho por causa do vento. Nas sombras, o frio fundia-se à forte ventania e a sensação de inverno rigoroso predominava. Era outono e todas as árvores perdiam suas folhas. Apenas algumas resistiam heroicamente, expondo pouquíssimos galhos ainda floreados.

Cíntia vivia em uma pequena cidade que, assim como todas, possuía sua própria lenda. Ali, era o bosque. Não havia estação em que suas árvores de galhos retorcidos, emaranhados e sem flores deixassem de transmitir a terrível sensação de que aquele lugar era sombrio. Ninguém ousava se aproximar da entrada do bosque, um pequeno espaço entre as árvores coladas, que mais parecia a passagem de um animal.

Pois Cíntia não se preocupava com o bosque naquela manhã. Ajudava o fato de que viveu em sua frente durante toda a vida e jamais ouvira um ruído, muito menos vira algo estranho, o que a fazia desacreditar as faláceas. O principal motivo, porém, era a carta de amor que segurava.

Custou-lhe tanto escrever aquela carta. Precisou refazê-la milhões de vezes, devido às mãos trêmulas. Depois mais tantas n vezes, porque desistia, de medo, e a amassava - então recriava coragem e precisava refazer o trabalho. Até possuía olheiras acumuladas ao longo daquela pesarosa noite.

Ele também morava em frente ao bosque, duas casas à esquerda de Cíntia. Ela jamais se esqueceu daquela noite na infância, em que aquele garoto grosseiro a empurrou e ele surgiu e a defendeu, como se não tivesse metade do tamanho do adversário. Ela podia escutar perfeitamente aquela voz infantil em sua cabeça, como se não fizesse dez anos. "Deixa ela em paz!".

Com o tempo, a gratidão eterna transformou-se em amor. Ele, de fato, continuava franzino. Usava óculos, pois a miopia passou a fazer parte da sua vida aos onze anos. Tinha um colete xadrez que parecia fazer parte de seu corpo. Ninguém entenderia porque a bela loura de olhos verdes o amava. Ademais, seriam um casal tão esquisito.

Acontece que ela o viu antes do previsto. Ele estava saindo de casa adiantado naquela terça-feira. O milimetricamente planejado encontro na escola foi pelos ares. Por nervosismo e descuido, seus braços se tornaram moles e a carta voou para um destino não menos insólito do que o bosque. No impulso, Cíntia correu para resgatá-la: e se chegasse às mãos de alguém?

domingo, 29 de julho de 2012

Bela Adormecida

Queria ser como os filmes. Desejava, literalmente, viver um romance. Uma hora e meia de encontros e desencontros água com açúcar, seguido de um "felizes para sempre". Ingênua, é como a classificavam. Mas quem, por céus, jamais quis as coisas assim, tão fáceis?

Uma vez, recebeu um buquê de flores. De quem? Não se sabe. Passou a se arrumar mais, procurar por seu príncipe encantado. Olhava para todos os homens e realizava minuciosa análise "será que é você?". Não soube, ele não apareceu.

Assim se passou uma semana. Ela começou a se desesperar, pois as flores murchavam rapidamente. Ninguém aparecia. Precisou jogar o buquê no lixo numa quarta-feira feia e chuvosa. Jogou e depois trancou-se no quarto, chorando alucinadamente. Era como se a perda daquelas flores significasse também a perda de seu amor.

No dia seguinte, porém, recebeu uma única rosa e um cartão. "Não busque por mim, nem mencione minha existência. Rasgue esse cartão, queime-o. Quero seu coração, não os seus olhos. Todos os dias mandarei uma flor a você. Guarde todas. Quando completar novamente um buquê com vinte e duas rosas, como o primeiro que lhe enviei, durma à noite com o novo buquê ao seu lado. Eu virei acordá-la pela manhã, com uma surpresa especial para você".

Novamente ela chorou, dessa vez de alegria. Todos os que zombaram sua obsessão pelos filmes... faltava tão pouco para ter o príncipe ao seu lado, um final feliz. Mais que um romance, aquilo era um conto de fadas.

Os dias passaram se arrastando. Às vezes não sabia o que fazer: o relógio não andava, parecia regredir no tempo. Quando o tão sonhado dia chegou, arrumou-se por horas, somente para dormir. Pensou em passar batom, mas e se o príncipe quisesse beijá-la? Achava que não conseguiria adormecer de tanta ansiedade, mas enganou-se: adormeceu tão rápido que sequer percebeu, ainda com o buquê em mãos.

Perto das três da manhã, ele chegou. Sem nenhuma luz para iluminar seu rosto, deslocava-se entre as trevas. Seu passo era lento, não como quem não deseja acordá-la, mas como quem esperou tanto por aquele momento que o tempo deixou de existir. Chegou perto do corpo e curvou-se para contemplá-la. No silêncio da mais profunda noite, era possível até ouvir seus batimentos. Sentiu o desejo tomar conta de si. Estava acontecendo. Ela estava ali, em sua frente.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Boca dura

- A senhora precisa de ajuda?
- Não, só to dando uma olhada.
- Quer aproveitar pra fazer um cartão da loja?
- Eu tenho 17.
- A partir dos 16 você já pode fazer o cartão, só trazer seus pais aqui, eles assinam uma autorização e...
- Então eu tenho 15.

Melhor amigo do homem


Meu vizinho tinha um Husky siberiano, lobo maravilhoso, com um olho azul e outro castanho, os pelos acinzentados e brancos. Tão bonito que causava inveja tanto a nós, vizinhos admiradores de cães, quanto aos próprios mascotes dos arredores.

Teófiles, ainda meio filhote, possuía apenas um ano e meio. Era brincalhão e se entendia com crianças, permitindo até as manobras mais ousadas, como puxar-lhe o rabo, as orelhas, ou tentar montá-lo como um cavalo.

Sendo o Husky uma raça de puxar trenós, todos os domingos o vizinho organizava uma brincadeira que os pequenos adoravam. Havia uma caixa de madeira, à qual, brilhantemente, os moleques conseguiram anexar rodinhas. Estava segura à uma guia, cuja outra extremidade era presa ao cão, que saía correndo pela quadra. Era permitida apenas uma criança por vez, para não sobrecarregá-lo, mas ele mantinha o pique por horas, atendendo a todas.

Seu dono tinha uns vinte e tantos anos e morava apenas com o cão, dividindo com ele todo o seu tempo livre. Saíam diariamente para caminhar, assistiam TV e até a casinha de Teófiles ficava no mesmo quarto.

Um dia, ao sair de casa para ir ao trabalho, como fazia todas as manhãs com seu Corsa vermelho, não percebeu que o portão não havia fechado. Ao voltar, nove horas depois, assustou-se com o portão aberto e entrou desesperado. Antes mesmo de conferir se havia sido roubado, gritou por Teófiles. Nada. Colocou em todos os lugares que pôde a foto do cão. Até procurei, mas sem resultados.

Uns dois meses depois, quando o vizinho já havia comprado e se entendido com um boxer, passei com meu carro na rua e vi o cão deitado ao canto do asfalto. Nem o reconheceria, não fossem os olhos heterocrômicos: estava quase sem pelo por causa da sarna, muito mais magro e com parte da orelha esquerda comida.

Ele não se mexia e provavelmente acabaria sendo atropelado caso não o fizesse. Estacionei o carro e, quando ele me viu, balançou o rabo e se esforçou para levantar. Aí descobri o problema: estava com a pata direita traseira quebrada, gemeu de dor. Levantei-o e, sem ligar para as moléstias, coloquei-o no banco de trás e fui direto para a casa do vizinho. Ele ia ficar tão feliz quando visse Teófiles.

Chegando lá, animou-se com a notícia, mas assim que viu o estado do cão veio com uma conversa de que não iria querer dois cachorros, não caberia no orçamento, não tinha tempo para cuidar, isso e aquilo.

Pois fui eu quem levou Teófiles ao veterinário. Uns banhos, ele andava com a pata engessada pra lá e pra cá por quatro meses, uma figura. Ainda chora feito uma coisa quando olha para a casa do vizinho, ou o vê passeando na rua com seu novo cão.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Busca

- Estive procurando pelo amor esses dias...
- Que?
- Pois é, sei que esse não é o tipo de coisa que se procura, mas resolvi tentar a sorte...
- Não, não, caro amigo. Que é esse tal de amor?
- Está brincando?
- Desconheço tal termo.
- Não é um termo, é um sentimento.
- E se parece com o que?
- Com tudo.
- Como tudo? Parece com alegria ou com tristeza?
- Ambos.
- Como é possível?
- Porque amor é o motivo de se viver. Sem amor não há vida. É um todo.
- Ah!
- Que é?
- Quem diria, tenho um amigo humorista.

sábado, 2 de junho de 2012

Coração partido

- Estou com o coração partido.
- Que és um coração partido? - perguntou-me o desapegado.
- É que meu coração anda apertado. Apertado é uma forma de amenizar... ele foi apertado assim, uns tempos atrás, tão bruscamente que quebrou em milhares de pedacinhos. E agora andam pisando nos pedacinhos, pra completar...
- Mas nossa, isso acontece mesmo?
- Acontece...
- E que fazes? Junta os pedaços?
- Na inocência, amigo, tentei...
- Inocência?? Que aconteceu?
- Coração é assim... que nem um copo de vidro, não que nem quebra-cabeças... não dá pra juntar e, digamos que alguém conseguisse... não seria a mesma coisa, jamais.
- O que parte um coração?
- A gente deixar pessoas que não cuidam, ficarem com ele...
- E porque deixaste uma coisa dessas??
- Só amor, caro amigo. Só amor...
- E agora, vai viver o resto da vida assim?
- Vou, juntando o que der
- Estranho tu.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Pinguim


Sentia frio, era o que sabia. O inverno era forte e o tempo estava mais desanimador a cada dia. Primeiro frio, depois nublado, chuva e aí chuva com vento forte.

No local de trabalho, por cuidado com a saúde dos funcionários, as janelas eram mantidas abertas, inclusive quando chovia e molhava a mesa do pobre estagiário que ali embaixo ficava.

O homem tinha o nariz grande e turvo na ponta, o que já o tornava alvo de piadas. Seus olhos eram escuros e ele mantinha aberto o casaco preto de mangas compridas, expondo a camisa branca de uniforme do serviço.

Nunca cuidou muito da postura, mas naqueles dias de inverno a questão era outra. Havia se tornado totalmente encolhido, como um velhinho. Andava quase se arrastando, como se fosse uma máquina cujas engrenagens travaram pelo frio. Somando-se ao restante da aparência, concederam o apelido que o marcou pelo resto da vida: pinguim.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Encontro

Caminhava sobre aquele chão tão fino, tão macio, que parecia pedacinhos de seda. Era claro e até refletia o sol. Havia tanta gente, todos competindo por um espaço para pisar naquela espécie de nuvem, que misteriosamente conseguia transmitir uma sensação de firmeza aos pés. Ali, simplesmente não precisavam se preocupar com nada.

Apesar da sensação de conforto, resolveu continuar a atravessá-la. "Não era tão longa", pensou, arrependendo-se de não ter dado passos mais curtos, mais lentos, e aproveitado melhor. Logo estava diante da imensidão. No horizonte, fundia-se com o céu, formando um todo azulado, quase que uma pintura. Maravilhado, pela primeira vez aquele pequeno menino encontrou o mar.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Metades


- Já parou pra imaginar um mundo em que você existisse sem mim?
Ele me perguntou, um dia. Encarava-me com olhos que não eram curiosos, mas esperançosos, de quem esperava que eu desse a resposta que ele secretamente imaginara.
- Já.
Seu rosto entristeceu. "Como é bobo", pensei e sorri por dentro. Sem querer, sorri por fora também.
- Foi bom, pelo jeito.
- Não.
- Foi ruim?
- Não.
- Então o que?
Perguntou-me, sem entender. Tentei ficar séria e talvez tenha conseguido por demais.
- Foi inexistente. Não existe um mundo pra mim em que não exista você. Eu mesma não sou mais eu, sou um pedaço meu e um pedaço teu... não como metades juntas, mas como se fossemos um só.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Entendendo

Percebeu que o estava desculpando por não amá-la tanto: era o que estava fazendo o tempo todo. Sem graça, observou que amor não é algo que se desculpa, mas se entende.

Então, sem dizer nada, foi embora. Queria apenas que ele entendesse também: agora ela encontraria alguém que a amasse tanto quanto ela o amava.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Capuz


- Você já se apaixonou?

Eu devia estar esperando por essa pergunta, justamente porque ele era a pessoa mais convencida do mundo: provavelmente achava que eu exclamaria "Sim! Por você! Todos os dias!". Eu não sentia isso e, mesmo se sentisse, jamais diria.

- Se apaixonar pra que? Passar anos se lamentando, por uma miséria de memórias que nem são lá tão boas...

Não houve resposta, mas também não ficamos em silêncio. Matheus puxou a mochila, que estava em suas costas, e começou a buscar algo lá dentro.

- O que você está fazendo?

Não soube decifrar sua reação e não tive muito tempo para fazê-lo. Ele puxou o moletom preto da Vans, aquele que eu secretamente adorava, e vestiu. O mesmo moletom de que ele puxou o capuz em um dia de chuva, umas semanas atrás. Apenas puxou e foi embora, como se fosse então imune ao tempo.

- Você é fria pra caralho, Líliam.

Ele foi embora, exatamente como naquele dia, mas não havia chuva. Talvez agora fosse imune a mim.

domingo, 18 de dezembro de 2011

O problema não é o cachorro

O problema não é o cachorro. Não acreditamos que ele seja inferior ou coisa do gênero. Não achamos que o que as pessoas fizeram com o yorshire, ou qualquer outro que vocês compartilham, esteja certa. Não apoiamos que os cães sejam abandonados nas ruas.

É que achamos vocês hipócritas. Sejam sinceros, quantos cães vocês já adotaram? Porque teriam menos imagens assim se vocês adotassem. Vocês já viram um cão sendo mal tratado? Denunciaram?

Na verdade, esse é outro problema. Essas fotos "Denunciem". Vocês compartilham uma foto escrito "Denunciem", com a imagem de algum crime. Uma hora, 3 mil pessoas compartilharam e ninguém denunciou. Então temos uma foto que rodou a internet inteira sem mobilizar ninguém.

Tá aí o terceiro problema, vocês acham que clicar em "compartilhar", ou xingar o criminoso em um comentário é mobilização. Já ajudaram uma ONG hoje? Tem várias que lutam contra os maus tratos aos animais e elas precisam de voluntários, muitas estão falindo porque falta apoio financeiro.

E depois, mais uma vez, não achamos os cães inferiores, mas questionamos, da mesma forma, o que vocês tem feito pelas pessoas? Não digam que deram esmola pra um mendigo, pelo amor de Deus. O Natal está chegando, vocês doaram brinquedos a algum orfanato? Pode ser aqueles de R$1,99 mesmo. Ou visitaram um asilo?

Não apoiamos as fotos em que vocês compartilham gestos de heroísmo (ou suposto heroísmo) e dizem que aquelas pessoas são melhores que as outras. Realmente, são um exemplo e isso é importante, mas vocês não precisam diminuir todos os demais por isso. Na verdade, vocês não deveriam nem estar julgando valores aos outros. Não sabem que é daí que todos os tipos de preconceito surgem? Quando julgamos as coisas superiores ou inferiores?

Também entendemos que vocês querem que as pessoas que cometeram crimes sejam punidas. Mas não entendemos como xingar o Brasil ajuda nisso. Vocês literalmente são o presente e futuro do país e como vão ajudar a mudar algo com uma concepção tão medíocre? Já tem alguma hipótese consolidada sobre como melhorar? Leram a legislação e perceberam os pontos em que ela está falhando? E quando vocês não xingam o Brasil, querem que o criminoso morra porque são "contra a violência". Querem mais hipocrisia que isso?

A questão não é acharmos que vocês não se importam. Acreditamos que vocês precisam, urgentemente, mudar o jeito de pensar e agir. Defendam direito as coisas em que acreditam. Parem de se restringir em compartilhar fotos e tragam a ajuda que eles realmente precisam. Um cão e uma pessoa de rua não estão na internet, não faz diferença na vida deles que vocês compartilhem uma foto ou comentem "isso tem que acabar". Façam alguma coisa pra acabar. E façam logo porque, a cada dia, as coisas pioram.