quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Além da vida


Por um instante, quando senti o forte cheiro de incenso daquela sala, me perguntei o que estava fazendo ali. Mas foi um instante tão pequeno, porque eu realmente sabia o que me levou até lá. Só havia uma coisa que me levaria tantos quilômetros longe de casa.
Mais de quinze anos sem religião, sem fé. De repente, ali estava eu, em minha quinta conversa durante o mesmo mês. Procurando respostas que eu sabia que não encontraria em outro lugar.
Educada em família católica, por parte de pai, e evangélica, por parte de mãe, eu sabia que eles acreditavam em céu e inferno. Bem e mal, preto e branco. Mas voltei, mesmo assim. A princípio, buscava um propósito para mim, depois de um ano tão vazio.
Então eu soube do acidente. Sempre me perguntei por que justamente eu estava viva, enquanto tantas pessoas precisavam estar ali, mais do que eu. Fariam mais do que eu. Pessoas com doenças terminais. Pessoas que morreram subitamente. Pessoas tão boas. Mas não, quem continua aqui sou eu.
Nunca gostei de conversar sobre essas coisas com os outros. Elas tinham a sensação de que precisavam me consolar, ou dizer que sou muito pessimista. Ou competir. É da natureza das pessoas competir. “Você acha, com 20 anos, que não tem um propósito? E eu, que tenho mais de 30?”. Sim, tem razão, agora que você falou, melhorou tudo por aqui, obrigada.
- Helena, seja bem vinda!
Ela falava baixo, tão serena. Tinha olhos grandes e azuis, era magra, miúda, a cabeça raspada, e usava aquelas roupas diferentes. Era um robe? Não sei como chama. A pequena sala da casa de madeira tinha apenas um sofá, para receber as visitas, que parecia ter tempo demais para ter sido comprado por ela. Em frente ao sofá, uma estante cheia de livros, e algumas imagens de Buda.
O cheiro de incenso consumia aquele espaço minúsculo, com a janela fechada, e meus olhos encheram de lágrimas enquanto eu segurava para não tossir e nem espirrar. “Não seja rude, Helena. Mantenha o foco, Helena. Pelo amor de Deus, Helena”, eu repetia mentalmente.
- Você está bem?
Não adiantou, nunca soube disfarçar. Mas bem que eu prossegui tentando.
- Sim – comecei a tossir. Droga. – Tem sido muito difícil pra mim.
O quanto aquilo poderia ser ridículo? Ali mais uma resposta que eu buscava na religião: como parar de fazer de cada momento da minha vida um episódio de autodepreciação?
Ela sorriu, apagou o incenso, abriu a janela e me convidou para me sentar.
- Desculpe, já estou acostumada. Aceita uma água?
- Não, obrigada. Obrigada por me receber. – eu sorri, constrangida.
- Você disse que está procurando por respostas, mas eu não sei se tenho a resposta que você procura.
- Eu queria que você me explicasse mais sobre o budismo. Eu não gosto de confiar na internet para essas coisas.
E, assim, ela explicou, tão calmamente. Suas respostas, de fato, não ajudaram, e talvez nem minhas perguntas foram as certas, mas ela me fez colocar em xeque todo o meu jeito de ser. O meu estresse, o meu materialismo. Toda a superficialidade da minha rotina.
Onde eu estudei, havia três tipos de pessoas. As que nasceram em berço de ouro, filhas das pessoas mais influentes da cidade, que já sabiam que herdariam tudo. As bolsistas, que tinham sua permanência ali assegurada pelo sacrifício de toda a sua juventude em detrimento de estudar o dia todo. E aquelas, como eu, cujos pais se sacrificavam em jornadas de trabalho extenuantes para mantê-los ali.
Sempre olhei as coisas pelo ângulo errado. O ângulo que me comparava com os outros e me fazia perder sempre. Eu não seria materialista se tivesse entendido o meu lugar, se tivesse sido capaz de ver o cansaço no rosto deles quando chegavam em casa. Não, eu queria o lugar que nunca foi meu. Eu queria viver como aquelas garotas que pareciam ter saído de uma revista de moda, de um filme da Disney, de qualquer série adolescente que estivesse em alta.
Passei tantos anos tentando. Tantos anos tentando tanta coisa que não agrega. “Dessa vida a gente não leva nada”, dizia o pastor que a minha mãe adorava. E a Bárbara, que vive naquela casinha tão pequena, com tão pouco, e mesmo assim não sente falta de nada? Tão plena. “Felicidade não está nas coisas que a gente tem”, repeti pra mim.
Nos dias seguintes, estive mais calma por fora. Por dentro, eu estava desesperada por respostas. Me vinha à cabeça aquele carro capotado, e eu conseguia lembrar de cada amassado, do vidro quebrado. Como eu poderia saber?
Poderia ser uma ilusão. Eu nunca perguntei. Como eu faria, depois de tanto tempo, quando a vida nos levou para caminhos tão distantes?
Eu pensava que a vida era injusta comigo. Depois de Bárbara, percebi que injusta era eu com a vida. Achava que a vida me levou para um caminho tão ruim. Quem se atraiu para lá fui eu, e continuei em frente mesmo quando percebi que as luzes foram se extinguindo até acabar. Então, chorei no escuro porque não via o caminho de volta.
Será que haveria, ali no escuro, um cheiro de incenso tentando me guiar de volta? Uma luz que brilharia se eu acreditasse? Uma mão que me guiaria se eu pedisse? Absolutamente qualquer coisa que pudesse me ajudar?
E, assim, fui parar no centro espírita. Era irônico a garota que tinha medo de fantasmas ir parar ali. A garota que dizia que não acreditava em Deus, louvando com os evangélicos, orando com os católicos. A materialista, conversando com a budista. Tudo era irônico.
Depois de um ano totalmente vazio, confesso que pedi, durante várias noites, para ter uma vida diferente. Para ser melhor, fazer melhor para os outros, para mim. No chão, o contorno dos meus joelhos. Nos meus joelhos, o afundado de quem passou 20 minutos por dia, durante um mês inteiro, ajoelhando ao lado da cama.
E lá estava eu, vivendo totalmente diferente. Não da forma como eu queria. Não pelo motivo que eu queria. Mas, definitivamente, singular.
Talvez tenha havido uma falha na comunicação, depois de tantos anos sem conversar com Deus. Sei que ele me entendeu, porque é Deus, mas talvez eu não o tenha entendido. E talvez esse seja o preço por dizer, durante tantos anos, que não acreditava nele.
Ajoelhada no escuro e no silêncio do meu quarto (salvo pelo barulho da chuva que caía lá fora), eu chorei e pedi perdão. Pedi que ele me guiasse de volta para a luz. Foi engraçado porque, naquele momento, caiu um raio. E eu, ajoelhada do lado esquerdo da cama, vi a porta à direita, com o interruptor ao lado.
Eu me pergunto se Deus é literal assim com todo mundo. “Está procurando a saída, a luz? Está bem aqui, é só andar um pouco. Cuidado para não bater o joelho ou o dedo do pé na ponta da cama”.
Acompanhei o culto espírita sem fazer nenhuma pergunta. Sem me manifestar. Tive vergonha do meu pensamento infantil. “Tomara que nenhum espírito estranho venha para o meu lado”. Ele não era estranho, mas veio.
- Helena?
- Sim.
- Seu avô disse que você está desviando do caminho.
Sim. Quatro anos antes, ele me disse a mesma coisa, em um sonho. Naquela época, eu ainda sentia a presença dele, como se ele cuidasse de mim. Conheci uma espírita que confirmou: sim, ele cuidava. Depois daquele sonho, porém, não o senti mais. Sempre pensei que ele havia transgredido uma barreira por mim: ele não podia ter me contado onde eu estava no meu caminho, mas ele tentou me ajudar, ele contou. E eu não fiz nada além de continuar me perdendo.
“Pare de transformar cada minuto em um episódio de autodepreciação”, repeti pra mim.
- Ele disse isso antes. – Respondi. – Eu estou procurando alguém.
- Eu sei, um espírito recente. Mas ele está bem, está sendo encaminhado. Você pode rezar por ele.
Rezar. Eu não queria rezar. Queria conversar, abraçar, voltar no tempo e impedir que entrasse naquele carro, naquele dia, naquela estrada. Para impedir que ele morresse, eu precisaria voltar tanto tempo. Nos perdemos há tantos anos.
E lá fui eu, procurar no hinduísmo, mas me perdi em deuses demais e sentidos demais. Talvez a pessoa não soubesse explicar, talvez eu não soubesse entender.
Não achei a resposta novamente, ou pelo menos não a que eu queria, mas o templo ficava afastado, na BR, e encontrei o rio em que meus pais foram uma vez quando eu era pequena. Aquele lugar que parecia um paraíso. Tanto que não percebemos a quantidade de insetos que havia, até que sentirmos a coceira das picadas e perceber que elas estavam por todo o corpo. Levou mais de um mês para nos recuperarmos, e prometemos que nunca mais voltaríamos.
Mesmo assim, caminhei até lá, como se fosse um ímã, sendo atraída por um polo diferente. Talvez essa seja a analogia perfeita. Ele sempre foi o polo positivo, e eu o negativo. Sempre tentando me equilibrar enquanto eu o puxava para baixo. Talvez por isso tenha seguido outro caminho, tão longe de mim. Mas, se nos víssemos, será que nos atrairíamos?
Eu me arrependo com muito mais frequência do que deveria. Quando soube do acidente, entrei em desespero. Quando soube que aquele outro caminho o levou àquele desfecho. Então eu percebi que, no meu sonho, era ali que o carro caía. E ainda havia cacos de vidro em meio às pedras, misturados com a terra.
Meu coração disparou e eu senti que iria desmaiar, mas me contive. Não ali, não sozinha. Mas, ao mesmo tempo, eu tinha a sensação de que não estava sozinha, e aquilo me acalmava e me desesperava ao mesmo tempo.
Nunca gostei de pensar sobre a morte, porque tenho a mesma crença dos meus pais, de que vamos para o céu ou para o inferno. E eu nunca me senti digna do céu. Ao mesmo tempo em que eu me perguntava por que eu vivia enquanto outras pessoas morriam, eu não desejava mesmo morrer.
Se bem que eu iria no lugar dele. E iria no lugar da mãe de qualquer uma das quatro pessoas incríveis que eu conheço, para que elas não tivessem que sofrer o que sofreram nos últimos anos. Eu não sou capaz de aliviar o sofrimento delas. Minha vida é tão finita diante desse mundo.
Na sombra, perto de uma árvore que se torcia em direção à água, eu o encontrei. Do mesmo jeito que estava no meu sonho. De alguma forma, eu sabia que não podia tocá-lo. Que ele estava ali, mas pertencia a outra dimensão. Qual religião acertou? Eu não sei. Sempre acreditei que todas acertaram, e que cada um escolhe o seu jeito de ter fé.
Mas a questão é que ele estava ali, naquele momento. Olhando pra mim, como quem sabia tudo que eu iria dizer. E eu disse. Pedi que ficasse comigo, que não fosse embora. Com o coração tão apertado que parecia estar sendo esmagado. Com aquele nó na garganta e a luta para conseguir falar com calma, sem chorar. Bárbara, parece que não aprendi nada com você.
Não sei por que o pedi que ficasse. O acidente já tinha acontecido. Ele não pertencia mais ao meu mundo. Mas eu o pedi que ficasse, como se pudesse fazê-lo. Como se pudesse reverter tudo e me ligar de manhã dizendo que sim, que ficaria, que nunca mais iria embora. Mesmo se pudesse reverter tudo, não voltaria pra mim. Vivíamos tão longe, como estranhos.
Ele me ouviu implorar até que não fui capaz de conter mais as minhas lágrimas e comecei a chorar. Chorar, soluçar, e eu nem precisava de um espelho para saber que o meu rosto estava todo vermelho. Meus olhos ardiam, meu rosto ardia, e eu não sabia se era o sol, que até aquele momento eu ignorava, ou se realmente uma pessoa é capaz de sentir tanta coisa a ponto de explodir. Quando eu chorei, estiquei o braço na direção dele, esperando que segurasse a minha mão. Eu realmente esperava.
Naquele momento, eu não parei para pensar no fato de que eu realmente me senti acompanhada. Depois de tantos dias ajoelhada ao lado da cama, sentindo que estava conversando com a parede do meu quarto, quando o que eu queria realmente era conversar com Deus. Não senti a presença de Deus, mas senti a presença dele. E foi tão forte quanto eu imaginei que seria.
Eu estiquei o braço na direção dele, e ele sorriu pra mim. Sorriu, e por um segundo eu pude acreditar que ele estenderia a mão de volta. Meu coração batia tão forte que parecia que iria atravessar o meu peito. Se atravessasse, eu saberia onde encontrá-lo. Eu sempre soube a quem ele pertencia, mas neguei durante tantos anos. Tantos, que ficou tarde demais.
Por um segundo, me enchi de alegria, como se eu fosse um copo e a alegria fosse água, completando. Alegria, esperança, fé, tudo ao mesmo tempo. Como se eu nunca tivesse ficado triste. Como se eu não fosse Helena, a pessimista.
Então, tão rápido como ele sorriu, ele desapareceu. E eu não pude conter o meu corpo, que desabou no chão, de joelhos. Por que?
Eu queria gritar, mas quase engasgava de tanto soluçar. Queria chorar, mas era como se já tivesse gasto todas as minhas lágrimas. “Chorei demais”, concluí. Ali, ajoelhada diante do vazio, notei que nenhum caco havia me cortado. E que, naquela árvore contorcida, haviam lindas flores roxas, tão pequenas. Ou talvez fossem rosadas. Meus olhos estavam embaçados, e ardiam, e o sol batia sobre eles.
“Deus é bom”, disse o pastor, na última missa que fui. “Deus não é bom, Deus é muito bom”, corrigiu o pastor, em seguida. E eu entendi que ele tinha que ir, e que eu precisava ir também, mas tínhamos que ir para caminhos diferentes. Caminhos que, naquele momento, não podiam se encontrar.
Eu ignorei tantos sinais de que deveria deixá-lo ir, mas por isso eu não me culpo. Porque, por isso, reencontrei minha fé. Por isso, conheci a Bárbara, e conheci outras pessoas incríveis, que vivem tão diferentes de mim, que vivem em paz com o próprio coração.
Então eu pude me levantar e voltar. Pude começar a viver diferente, por mais que isso não signifique nada do que eu imaginei. Permanece bom. E será um Feliz Ano Novo.