quarta-feira, 29 de junho de 2011

Lago


Atravessava a ponte sobre o lago da Universidade. Na ida, preocupava-se com a chuva e o vento, que tornavam seu guarda-chuva pesado e instável. Tinha medo de derrubar os livros que carregava, pois haviam várias poças d'água. Pensava nas mãos congelando, mas estava com sorte: colocou todas as blusas de manga comprida que encontrou em casa, num total de seis, então estava quente no restante do corpo.

Na volta, a chuva tornou-se uma leve garoa e não havia mais o peso dos livros. Olhou para baixo enquanto atravessava a ponte e contemplou pela primeira vez o lago. A água não era limpa e nenhum dos peixes estava visível naquele dia. Com o vento forte, pequenas ondinhas curvas e sucessivas formavam-se e lembravam impressões digitais. Por causa do frio, a visão da água não remetia a algo líquido, mas a uma gelatina. Se estivesse mais frio aquilo logo congelaria.

Mas a ponte era curta e logo chegou do outro lado. Ainda olhou para trás e indagou se, caso o lago congelasse, os alunos poderiam patinar no gelo.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Frio


O céu não possuía nuvens, de forma que o sol reinava naquela enganosa paisagem de tarde em Curitiba. Os termômetros de rua indicavam 7ºC e a previsão do tempo não era animadora: alguns diziam que chegaria a 0ºC, outros -2ºC.

Dentro de casa, observando o dia lindo lá fora, Amanda resolveu sentar-se um pouco na sacada. Mal abriu a porta de vidro, foi desenganada: o vento era cortante. Não viu solução além de sentar-se na cama, com um casaco de inverno e as pernas enroladas em 2 edredons e um cobertor enorme.

Já havia parado de pensar na praia de Camboriú, pois sabia que a nostalgia lhe fazia mal; agora pensava em lareira, chocolate quente, abraços e voltar a sentir os dedos das mãos. Mas tudo o que tinha limitava-se às cobertas, fechar a janela e reforçar-se de roupas até se sentir desconfortável para dobrar os braços, por exemplo.

O inverno havia começado há apenas 1 semana. Nesse desânimo Amanda passou a tarde sonolenta, lendo seu livro. Tinha as bochechas vermelhas e os lábios rachados pelo frio. Queria mexer no computador, mas sentia frio nas pernas ao sair da cama e nunca teve um laptop.

Acabou por terminar as 140 páginas que restavam do livro em 4 horas isolada no quarto. Depois, pegou um pequeno cobertor que tinha desde bebê, cobriu as pernas (o que a fez se sentir como a avó materna) e sentou-se à frente do computador para assistir filmes baixados pela internet. Não tinha nenhum achocolatado em casa e não sairia naquele tempo para comprar, ficou sem beber nada. Essas coisas de inverno.

E vocês, o que fazem em dias de frio?

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Yasmin - Parte 2

Chegou e estacionou na vaga mais distante da entrada. Pegou o grande saco azul com zíper no porta-malas e colocou sua amada ali dentro. Ela não mostrou resistência e ele deixou uma brecha para olhar seu rosto. Caminhou novamente com ela no colo, então no meio do caminho precisou fechar tudo "É só por um tempinho, meu amor" explicava carinhosamente. Ela era leve, tinha perfeitos 46kg dos quais ele se orgulhava.

Sorriu para algumas pessoas no caminho, levou tapinhas nas costas e parabenizações, ninguém questionou o que ele carregava. Já havia uma considerável quantidade de gente na longa sala de aula que escolheram para a apresentação quando uma senhora de cabelos grisalhos, curtos, com mais rugas do que deveria ter aos 50 anos (estava fazendo pós-doutorado...) vestindo uma camiseta preta com desenhos florais que deixava seus bracinhos flácidos à mostra, uma calça preta social e sapatilhas pretas cobrindo apenas parcialmente uma meia calça bege, pegou o microfone, subiu no tablado e começou a falar.

Enquanto ela falava, ele milimetricamente planejava sua estratégia. Sentado na primeira cadeira de uma fileira com nove, tremia com o CD em mãos, mas então olhava para sua querida, ainda dentro do saco azul na cadeira ao lado e sorria. "Então agora, vou deixar o Igor falar, a vontade, Igor". Era sua deixa. Tirou-a delicadamente de lá de dentro e sussurrou em seu ouvido "Você nunca mais vai ter que ficar escondida assim, prometo". Segurou-lhe a mão e subiram juntos no tablado.

Ela estava radiante em um salto alto de 10 cm peep toe branco, que finalmente lhe deixava com mais de 1.70, e usava um vestido branco de chiffon até o joelho, quase sugestivo ao lado do terno preto que ele havia escolhido. No pescoço, um delicado colar de ouro branco com pingente em forma de infinito deveria representar o tempo em que ficariam juntos. Igor comprou-o na Vivara um ano antes, gastou uma fortuna.

Um fotógrafo contratado por ele registrava cada passo. Igor cumprimentou a senhora, que passou-lhe o microfone. Colocou o CD no computador, abriu o arquivo e apresentou seu trabalho de conclusão de curso em Design da USP: projetada sobre a superfície de uma boneca que pertencera à avó por parte materna, ali estava ela, sorrindo para todos; Yasmin, seu amor.

Yasmin - Parte 1

Seus olhos eram azuis, mas dependendo da luz ficavam verdes, ressaltados com bastante rímel preto nos cílios. O cabelo era longo e ondulado de um louro claro, terminava pouco depois do meio das costas e brilhava mesmo sem estar no sol.

Dizem os homens (e algumas mulheres) que o corpo dela era lindo. Na verdade, linda era uma palavra que usavam muito para descrevê-la. Sua pele sempre possuía um leve bronzeado, suas sobrancelhas estavam sempre bem feitas, se adequando àquele rostinho redondo que a fazia parecer mais nova do que era.

As unhas não eram extravagantes, mas mantinham-se longas, fortes e sempre pintadas de alguma cor clara, como renda. Às vezes era comparada com Serena Van der Woodsen, a estrela de Gossip Girl. Pela aparência era justo, tirando o fato que ela era pequena, tinha apenas 163 cm.

Quem a via com a sua babylook mais justa sabia que ela estava isenta de qualquer gordurinha a mais. Alguns que já haviam visto ela sem roupa (não se sabe se viram ou inventaram) diziam que não tinha estrias e celulites, muito menos um pêlo onde não deveria. "Os seios eram ótimos". Sua pele parecia seda, cheirava a óleo de pitanga da Natura nos dias comuns, em seu aniversário usava perfume importado, da última vez foi J'adore.

Orgulhoso, o homem de 23 anos, cabelos crespos e barba feita às pressas, com olheiras debaixo dos olhos castanhos indicando alguém que não dormia direito há pelo menos três noites, carregou-a no colo naquela manhã de sexta-feira. Corria para dentro de seu Celta vermelho, tomando cuidado ao abrir a porta, até colocou o cinto de segurança para ela.

Ao entrar no carro, conferiu tudo. "CD Yasmin", perfume, hálito... não, precisava de um mentos. Era magro e estava desajeitado, nervoso. Vestia terno porque aquela era uma ocasião especial e nunca sabia o que vestir em dias assim. Dirigiu por meia hora vendo-a pelo retrovisor, conversava "Lembra quando nos conhecemos e eu nem dei bola pra você? Eu era um guri idiota"; seus olhos brilhavam e ela sorria em retorno, com dentes perfeitos e brancos.

Continua...

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Aranha - Parte 2

Cresceu. Nunca mais viu daquelas. Com o tempo, acabou esquecendo as aranhas e nem vários filmes "O Homem Aranha" faziam aquela adulta se lembrar da mania de infância. Quando alguém tentava recordá-la de seu inocente desejo de ser uma aranha, apenas ria, como se falassem de outra pessoa. Chegou até a matar uma daquelas pequenininhas de jardim, uma vez.

Um dia, sem ela saber, levaram uma aranha para a faculdade. A garota fazia arquitetura e urbanismo, estava no 3º ano, mas estudava com pessoas imaturas. Não entendeu, simplesmente levaram. Uma caranguejeira. Enorme, peluda, nunca tinha visto algo assim. Era do tamanho da palma da mão aberta de uma pessoa. Observava inquieta, apesar de tentar fingir indiferença. Depois guardaram e ela respirou aliviada.

Mas não acabou por aí. Enquanto ela se concentrava em suas anotações, tiraram a aranha de dentro do pote onde a guardavam e colocaram nas costas dela. Por que? Acharam engraçado. Sentiu algo sobre as costas, como dedos. Quando foi tocar para ver o que era, lhe ocorreram muitas coisas. De imediato, algo peludo e grande, caminhando lentamente com suas várias pernas grossas. Depois, o arrepio percorreu-lhe a espinha e subiu pelo corpo todo que tremia, apesar do esforço para ficar imóvel, o pânico ia lhe consumindo com uma voracidade que sentia-se mesmo a ser engolida viva. Não sabia o que fazer.

A turma ria maldosamente. Nenhum professor na sala, era intervalo. Alunos de outra turma passavam pela porta e paravam para ver a garota com a expressão facial desesperadora enquanto a aranha gigante caminhava alcançando seu ombro. Já sentia os pêlos diretamente em sua pele do pescoço. Coçava, pinicava, talvez doesse - ela não sabia definir.

Não aguentou pensar naquilo sobre seu rosto. Chorou. Chorou tanto, amaldiçoou a turma, todos os professores por não estarem presentes, as pessoas que olhavam sem fazer nada para ajudá-la. Amaldiçoou tudo, menos a aranha. "Essa, essa sim" pensou "é uma mãe vingando os filhos".

Aranha - Parte 1

Lembrava de quando era pequena, a primeira vez que viu. Uma bolinha pequena e marrom cheia de perninhas finas, imóvel como uma pedra no chão. Parecia algum brinquedo tão delicado...

Como de costume para as crianças, ia pegar, quando sua mãe alertou-lhe tão séria como se brigasse "NÃO COLOCA A MÃO NELA É VENENOSA, MATA". Matava, aquela coisinha? Desconfiou da mãe e quis pegar mesmo assim, aquela moça cheia de perninhas. Esticou o braço e foi imediatamente interrompida pela mãe, que deu-lhe um tapa na mão e a levou pro "Cantinho do Castigo".

Um tempo depois, viu o pai pisando em uma igualzinha. Pisou, apertou e quando tirou o pé ela dançava. Ficou olhando maravilhada aquele corpinho amassado se mexer, mas não se aproximou: a mãe estava em casa.

Foi no aniversário de uma amiga que estabeleceram o primeiro contato. Era uma casa antiga e grande, difícil de manter a limpeza em dia. No teto da casa, as teias e elas lá, penduradas com pernilongos e algum bicho desconhecido. Pareciam tão macias, as teias.

Naquele momento quis ser também uma delas, cheia de perninhas, enrolada naquilo que parecia um algodão, tão fofo como uma nuvem, olhando tudo e todos despreocupadamente do teto.

Até que viu uma delas atacar alguém. Grande, preta, com pernas bem mais longas. Não era daquelas pequenas, delicadas. Pulou sem aviso sob um menino da festa, sabe-se lá vinda de onde. O menino gritou de dor.

Os adultos correram para ajudá-lo e mataram-na com pisadas violentas. "Uma aranha mordeu ele" "Meu Deus" "Tem que levar pro hospital". Aranha, era o nome dela. A menina achava que era a mãe das pequenininhas vindo se vingar pela morte das filhas, mas acabou ferindo um inocente e depois sendo pisada. Não dançava no chão porque se tornara uma pasta indefinida. Mesmo assim, passou a ter medo das mães e a festa em que estava acabou.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Contradição

Adorava aventuras,
mas tinha medo até de montanha russa.

Gostava de esportes,
por isso jogava wii.

Pregava a bíblia,
da boca pra fora.

Prezava pela alimentação saudável,
junto com o macarrão e a carne de churrasco, sempre vinha uma folha de alface ou um pedacinho de cenoura como acompanhamento.

Odiava falsidade,
mas falava mal dos amigos.

Amava aquele garoto,
e chutou-o o saco.

domingo, 19 de junho de 2011

Dia de criança


Bateu o sinal e a gente foi pro recreio. Tava com o PSP que ganhei de aniversário e não queria ninguem em cima dele, aí me escondi. Aí veio a Maria que é fofoquera me viu e falo pra tia que eu tava escondido achô que eu tava fazendo coisa errada.

Aí a tia veio pergunta o que eu tava fazendo e eu falei jogando e ela pediu pra vê e eu mostrei aí ela foi embora. A Maria fico brava porque eu não fui pra sala da Bruxa (assim que agente chama) e foi vê o que eu tava fazendo eu escondi meu jogo no bolso e falei que não tava fazendo nada só comi lanche e ela não acredito mas aí bateu o sinal de novo e eu voltei pra sala.

Na aula foi dificil tinha matemática e a gente aprendeu fração foi com barra de chocolate ai depois agente comeu tudo tava bom. Depois teve ciências e a gente viu fotossíntese que é quando a planta respira com o sol.

Aí cheguei em casa e minha irmã mais nova pediu pra comê no Mc Donalds pediu um Mc Lanche Feliz porque vem com bichinhos do kung fu panda 2 e depois eu tinha lição de casa de matemática e joguei PSP e vi tevê.


Obs: Não achei nenhuma imagem de criança do jeito que eu queria, então foi qualquer uma.

sábado, 18 de junho de 2011

Subversão


Considerava-se flexível. Quando pequena, queria brincar de morto vivo, polícia e ladrão, mas as amigas queriam pular corda e brincar com barbies. Cedia. Depois de terminar a educação infantil, sua melhor amiga mudou de colégio e ela queria ir junto. A professora disse "você vai fazer novas melhores amigas". Cedeu e nunca mais soube da amiga: só lembrava o primeiro nome, Michele.

No ensino médio, adorava turismo e pensava em levar a carreira a sério. Seu pai lhe fez reconsiderar, engenharia ambiental seria uma carreira melhor, com progresso. Estava certo, ela tinha que pensar a longo prazo mesmo. Não gostava do curso, mas se formou.

Foi difícil arranjar emprego. Nunca foi a primeira da turma, justamente pela falta de afinidade com o curso; fez alguns estágios nas férias, pelas atividades complementares obrigatórias, mas nada de que tenha aproveitado muito. Por influência de um tio que morava no exterior, conseguiu um emprego na França. Não queria se mudar, amava seu país, mas seria uma boa oportunidade, um bom salário. Mudou-se. Não gostava do clima na França, mas se convenceu de que com o tempo acabaria se acostumando. Trabalhou e se especializou lá mesmo.

Um dia, porém, ouviu uma conversa sobre constituir família e filhos e ficou transtornada. Nunca havia pensado a respeito, "Quem vai escolher o meu marido? E se os filhos não tiverem os olhos que ele desejar?". Nunca havia pensado por si, realizado suas vontades. Não sabia nem se tinha vontades. Naquele momento percebeu uma coisa: passou a vida subvertendo a si mesma.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Maquiagem



Pois é gente, como toda mulher vaidosa eu vou falar sobre maquiagem nesse post. Acho que já está batido dizer como usar, cores e essas coisas, não é? Por isso, hoje vocês vão ver uma abordagem totalmente inovadora (ok, alguém já deve ter escrito, mas eu nunca vi): porque homens HETEROSSEXUAIS precisam entender de maquiagem. Isso mesmo caras, porque vocês precisam.

Começa assim, você acha a mulher/menina bonita, linda, gostosa... aí depende. Ok, depois de olhar do pescoço pra baixo você vai olhar do pescoço pra cima (porque, convenhamos, quem só olha o corpo tá desesperado). Elas podem ser lindas, mas algo vem junto com 99% delas. Se você pensou "as roupas" esse post é pra você: estou falando da maquiagem. Com base nela você pode concluir muitas coisas sobre uma garota, por exemplo:

Ela pode ser gordurosa se usar... pó: não é de cheirar, então nem tente. Serve para tirar o brilho de oleosidade da pele. Sim, a gata pode ter o rosto brilhante de óleo. Quando usa demais dá pra ver aquele pó em cima da pele, irg. Mas as que usam pouquinho não tem muito problema, pode ser pra uma festa ou balada, por exemplo.

Ela pode ser sem noção se usar... sombra: Vou te contar uma novidade - sabe aquela mulher que tem a pálpebra colorida? Então, aquilo não é natural, que coisa não? Serve para destacar os olhos e é muito usada... adivinhem? Em festas e baladas. Durante a noite tudo bem, mas aquela sombra SUPER azul ou verde durante o dia é estranho né.
Também mostra a personalidade das garotas - góticas costumam usar sombra preta e as coloridas (ou new emo, dependendo da nomenclatura) adoram sombras neon e combinar várias cores, laranja, amarelo, rosa, azul e tal.

Vou contar algo pra vocês: nunca escrevi um post direcionado pra homens. Como pode, né? Mas hoje tentei e queria receber um retorno. Se tiver ficado legal eu posto a segunda parte (sim, mulheres não usam só sombra e pó), senão termino minha experiência por aqui mesmo...