sábado, 18 de junho de 2011

Subversão


Considerava-se flexível. Quando pequena, queria brincar de morto vivo, polícia e ladrão, mas as amigas queriam pular corda e brincar com barbies. Cedia. Depois de terminar a educação infantil, sua melhor amiga mudou de colégio e ela queria ir junto. A professora disse "você vai fazer novas melhores amigas". Cedeu e nunca mais soube da amiga: só lembrava o primeiro nome, Michele.

No ensino médio, adorava turismo e pensava em levar a carreira a sério. Seu pai lhe fez reconsiderar, engenharia ambiental seria uma carreira melhor, com progresso. Estava certo, ela tinha que pensar a longo prazo mesmo. Não gostava do curso, mas se formou.

Foi difícil arranjar emprego. Nunca foi a primeira da turma, justamente pela falta de afinidade com o curso; fez alguns estágios nas férias, pelas atividades complementares obrigatórias, mas nada de que tenha aproveitado muito. Por influência de um tio que morava no exterior, conseguiu um emprego na França. Não queria se mudar, amava seu país, mas seria uma boa oportunidade, um bom salário. Mudou-se. Não gostava do clima na França, mas se convenceu de que com o tempo acabaria se acostumando. Trabalhou e se especializou lá mesmo.

Um dia, porém, ouviu uma conversa sobre constituir família e filhos e ficou transtornada. Nunca havia pensado a respeito, "Quem vai escolher o meu marido? E se os filhos não tiverem os olhos que ele desejar?". Nunca havia pensado por si, realizado suas vontades. Não sabia nem se tinha vontades. Naquele momento percebeu uma coisa: passou a vida subvertendo a si mesma.

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