domingo, 18 de dezembro de 2011

O problema não é o cachorro

O problema não é o cachorro. Não acreditamos que ele seja inferior ou coisa do gênero. Não achamos que o que as pessoas fizeram com o yorshire, ou qualquer outro que vocês compartilham, esteja certa. Não apoiamos que os cães sejam abandonados nas ruas.

É que achamos vocês hipócritas. Sejam sinceros, quantos cães vocês já adotaram? Porque teriam menos imagens assim se vocês adotassem. Vocês já viram um cão sendo mal tratado? Denunciaram?

Na verdade, esse é outro problema. Essas fotos "Denunciem". Vocês compartilham uma foto escrito "Denunciem", com a imagem de algum crime. Uma hora, 3 mil pessoas compartilharam e ninguém denunciou. Então temos uma foto que rodou a internet inteira sem mobilizar ninguém.

Tá aí o terceiro problema, vocês acham que clicar em "compartilhar", ou xingar o criminoso em um comentário é mobilização. Já ajudaram uma ONG hoje? Tem várias que lutam contra os maus tratos aos animais e elas precisam de voluntários, muitas estão falindo porque falta apoio financeiro.

E depois, mais uma vez, não achamos os cães inferiores, mas questionamos, da mesma forma, o que vocês tem feito pelas pessoas? Não digam que deram esmola pra um mendigo, pelo amor de Deus. O Natal está chegando, vocês doaram brinquedos a algum orfanato? Pode ser aqueles de R$1,99 mesmo. Ou visitaram um asilo?

Não apoiamos as fotos em que vocês compartilham gestos de heroísmo (ou suposto heroísmo) e dizem que aquelas pessoas são melhores que as outras. Realmente, são um exemplo e isso é importante, mas vocês não precisam diminuir todos os demais por isso. Na verdade, vocês não deveriam nem estar julgando valores aos outros. Não sabem que é daí que todos os tipos de preconceito surgem? Quando julgamos as coisas superiores ou inferiores?

Também entendemos que vocês querem que as pessoas que cometeram crimes sejam punidas. Mas não entendemos como xingar o Brasil ajuda nisso. Vocês literalmente são o presente e futuro do país e como vão ajudar a mudar algo com uma concepção tão medíocre? Já tem alguma hipótese consolidada sobre como melhorar? Leram a legislação e perceberam os pontos em que ela está falhando? E quando vocês não xingam o Brasil, querem que o criminoso morra porque são "contra a violência". Querem mais hipocrisia que isso?

A questão não é acharmos que vocês não se importam. Acreditamos que vocês precisam, urgentemente, mudar o jeito de pensar e agir. Defendam direito as coisas em que acreditam. Parem de se restringir em compartilhar fotos e tragam a ajuda que eles realmente precisam. Um cão e uma pessoa de rua não estão na internet, não faz diferença na vida deles que vocês compartilhem uma foto ou comentem "isso tem que acabar". Façam alguma coisa pra acabar. E façam logo porque, a cada dia, as coisas pioram.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Eu não li o Dom Quixote

Hoje em dia não parece, mas em julho de 2007, apenas quatro anos e meio atrás, eu tinha 14 anos. Acontece que resolvi mudar apenas de unidade no meu colégio, mas alguns livros eram diferentes. Isso me levou, pela primeira vez, à livraria do Chain.

Odiava livros. Aprendi a aceitá-los depois que entrei em jornalismo, em agosto do ano passado, e a amá-los apenas esse ano. Sem querer ser depressiva, mas muita coisa poderia ser diferente se o tivesse feito antes.

Enfim, voltando à história. Então eu, com meus catorze anos, entrei com a minha mãe na livraria. Já estávamos levando os livros quando um idoso se aproximou de mim. Era o dono da loja. Queria que eu levasse "Dom Quixote" - não comprá-lo, mas que eu lesse e depois lhe devolvesse, assim, sem compromisso.

Desprezei a atitude. Não queria o maldito livro. Livros nojentos, tão esnobes, cheios de letrinhas que, depois de certo tempo de leitura, me doem a cabeça. Livros com palavras que não entendo, de assuntos que não me interessam, com histórias que não me cativam.

Neguei até o fim e fui embora. Foi minha mãe quem me contou que ele era o dono. Hoje não sei nem se está vivo. Também nunca pensei a respeito disso, a memória me voltou há pouco.

Nos círculos que frequento hoje, as pessoas julgam demais. Ninguém se concentra no fato de que hoje eu amo livros. Ou focam que eu não gostava antes (o que consideram um absurdo), ou me consideram absurdamente inculta porque não li Dostoiévski, "nem Saramago! Misericórdia!". Não querem saber que mudei.

É justamente isso que é o mais importante pra mim, eu cresci. Cresci e amo livros, hoje eu não faria o mesmo. Porém, ainda me sinto incompleta: não li Dom Quixote.