Queria ser como os filmes. Desejava, literalmente, viver um romance. Uma hora e meia de encontros e desencontros água com açúcar, seguido de um "felizes para sempre". Ingênua, é como a classificavam. Mas quem, por céus, jamais quis as coisas assim, tão fáceis?
Uma vez, recebeu um buquê de flores. De quem? Não se sabe. Passou a se arrumar mais, procurar por seu príncipe encantado. Olhava para todos os homens e realizava minuciosa análise "será que é você?". Não soube, ele não apareceu.
Assim se passou uma semana. Ela começou a se desesperar, pois as flores murchavam rapidamente. Ninguém aparecia. Precisou jogar o buquê no lixo numa quarta-feira feia e chuvosa. Jogou e depois trancou-se no quarto, chorando alucinadamente. Era como se a perda daquelas flores significasse também a perda de seu amor.
No dia seguinte, porém, recebeu uma única rosa e um cartão. "Não busque por mim, nem mencione minha existência. Rasgue esse cartão, queime-o. Quero seu coração, não os seus olhos. Todos os dias mandarei uma flor a você. Guarde todas. Quando completar novamente um buquê com vinte e duas rosas, como o primeiro que lhe enviei, durma à noite com o novo buquê ao seu lado. Eu virei acordá-la pela manhã, com uma surpresa especial para você".
Novamente ela chorou, dessa vez de alegria. Todos os que zombaram sua obsessão pelos filmes... faltava tão pouco para ter o príncipe ao seu lado, um final feliz. Mais que um romance, aquilo era um conto de fadas.
Os dias passaram se arrastando. Às vezes não sabia o que fazer: o relógio não andava, parecia regredir no tempo. Quando o tão sonhado dia chegou, arrumou-se por horas, somente para dormir. Pensou em passar batom, mas e se o príncipe quisesse beijá-la? Achava que não conseguiria adormecer de tanta ansiedade, mas enganou-se: adormeceu tão rápido que sequer percebeu, ainda com o buquê em mãos.
Perto das três da manhã, ele chegou. Sem nenhuma luz para iluminar seu rosto, deslocava-se entre as trevas. Seu passo era lento, não como quem não deseja acordá-la, mas como quem esperou tanto por aquele momento que o tempo deixou de existir. Chegou perto do corpo e curvou-se para contemplá-la. No silêncio da mais profunda noite, era possível até ouvir seus batimentos. Sentiu o desejo tomar conta de si. Estava acontecendo. Ela estava ali, em sua frente.
domingo, 29 de julho de 2012
sexta-feira, 27 de julho de 2012
Boca dura
- A senhora precisa de ajuda?
- Não, só to dando uma olhada.
- Quer aproveitar pra fazer um cartão da loja?
- Eu tenho 17.
- A partir dos 16 você já pode fazer o cartão, só trazer seus pais aqui, eles assinam uma autorização e...
- Então eu tenho 15.
- Não, só to dando uma olhada.
- Quer aproveitar pra fazer um cartão da loja?
- Eu tenho 17.
- A partir dos 16 você já pode fazer o cartão, só trazer seus pais aqui, eles assinam uma autorização e...
- Então eu tenho 15.
Melhor amigo do homem
Meu vizinho tinha um Husky siberiano, lobo maravilhoso, com um olho azul e outro castanho, os pelos acinzentados e brancos. Tão bonito que causava inveja tanto a nós, vizinhos admiradores de cães, quanto aos próprios mascotes dos arredores.
Teófiles, ainda meio filhote, possuía apenas um ano e meio. Era brincalhão e se entendia com crianças, permitindo até as manobras mais ousadas, como puxar-lhe o rabo, as orelhas, ou tentar montá-lo como um cavalo.
Sendo o Husky uma raça de puxar trenós, todos os domingos o vizinho organizava uma brincadeira que os pequenos adoravam. Havia uma caixa de madeira, à qual, brilhantemente, os moleques conseguiram anexar rodinhas. Estava segura à uma guia, cuja outra extremidade era presa ao cão, que saía correndo pela quadra. Era permitida apenas uma criança por vez, para não sobrecarregá-lo, mas ele mantinha o pique por horas, atendendo a todas.
Seu dono tinha uns vinte e tantos anos e morava apenas com o cão, dividindo com ele todo o seu tempo livre. Saíam diariamente para caminhar, assistiam TV e até a casinha de Teófiles ficava no mesmo quarto.
Um dia, ao sair de casa para ir ao trabalho, como fazia todas as manhãs com seu Corsa vermelho, não percebeu que o portão não havia fechado. Ao voltar, nove horas depois, assustou-se com o portão aberto e entrou desesperado. Antes mesmo de conferir se havia sido roubado, gritou por Teófiles. Nada. Colocou em todos os lugares que pôde a foto do cão. Até procurei, mas sem resultados.
Uns dois meses depois, quando o vizinho já havia comprado e se entendido com um boxer, passei com meu carro na rua e vi o cão deitado ao canto do asfalto. Nem o reconheceria, não fossem os olhos heterocrômicos: estava quase sem pelo por causa da sarna, muito mais magro e com parte da orelha esquerda comida.
Ele não se mexia e provavelmente acabaria sendo atropelado caso não o fizesse. Estacionei o carro e, quando ele me viu, balançou o rabo e se esforçou para levantar. Aí descobri o problema: estava com a pata direita traseira quebrada, gemeu de dor. Levantei-o e, sem ligar para as moléstias, coloquei-o no banco de trás e fui direto para a casa do vizinho. Ele ia ficar tão feliz quando visse Teófiles.
Chegando lá, animou-se com a notícia, mas assim que viu o estado do cão veio com uma conversa de que não iria querer dois cachorros, não caberia no orçamento, não tinha tempo para cuidar, isso e aquilo.
Pois fui eu quem levou Teófiles ao veterinário. Uns banhos, ele andava com a pata engessada pra lá e pra cá por quatro meses, uma figura. Ainda chora feito uma coisa quando olha para a casa do vizinho, ou o vê passeando na rua com seu novo cão.
Uns dois meses depois, quando o vizinho já havia comprado e se entendido com um boxer, passei com meu carro na rua e vi o cão deitado ao canto do asfalto. Nem o reconheceria, não fossem os olhos heterocrômicos: estava quase sem pelo por causa da sarna, muito mais magro e com parte da orelha esquerda comida.
Ele não se mexia e provavelmente acabaria sendo atropelado caso não o fizesse. Estacionei o carro e, quando ele me viu, balançou o rabo e se esforçou para levantar. Aí descobri o problema: estava com a pata direita traseira quebrada, gemeu de dor. Levantei-o e, sem ligar para as moléstias, coloquei-o no banco de trás e fui direto para a casa do vizinho. Ele ia ficar tão feliz quando visse Teófiles.
Chegando lá, animou-se com a notícia, mas assim que viu o estado do cão veio com uma conversa de que não iria querer dois cachorros, não caberia no orçamento, não tinha tempo para cuidar, isso e aquilo.
Pois fui eu quem levou Teófiles ao veterinário. Uns banhos, ele andava com a pata engessada pra lá e pra cá por quatro meses, uma figura. Ainda chora feito uma coisa quando olha para a casa do vizinho, ou o vê passeando na rua com seu novo cão.
segunda-feira, 23 de julho de 2012
Busca
- Estive procurando pelo amor esses dias...
- Que?
- Pois é, sei que esse não é o tipo de coisa que se procura, mas resolvi tentar a sorte...
- Não, não, caro amigo. Que é esse tal de amor?
- Está brincando?
- Desconheço tal termo.
- Não é um termo, é um sentimento.
- E se parece com o que?
- Com tudo.
- Como tudo? Parece com alegria ou com tristeza?
- Ambos.
- Como é possível?
- Porque amor é o motivo de se viver. Sem amor não há vida. É um todo.
- Ah!
- Que é?
- Quem diria, tenho um amigo humorista.
- Que?
- Pois é, sei que esse não é o tipo de coisa que se procura, mas resolvi tentar a sorte...
- Não, não, caro amigo. Que é esse tal de amor?
- Está brincando?
- Desconheço tal termo.
- Não é um termo, é um sentimento.
- E se parece com o que?
- Com tudo.
- Como tudo? Parece com alegria ou com tristeza?
- Ambos.
- Como é possível?
- Porque amor é o motivo de se viver. Sem amor não há vida. É um todo.
- Ah!
- Que é?
- Quem diria, tenho um amigo humorista.
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