sábado, 1 de dezembro de 2012

Coisas de despedida

Havia menos de metade dos convidados a uma da manhã, quando acabou a festa de despedida. Nosso voo seria às seis e deveríamos sair de casa quatro e meia, mas nenhuma de nós se importou, teríamos tempo de dormir no avião. Por fim, restamos apenas nós quando Anne apontou para algo que estava atrás de mim. Virei.

- Líliam?
- Ah, oi Chuck. 

Charles McGregor foi um garoto dois anos mais velho que eu, com quem eu fiquei pela primeira vez em uma festa. Eu tinha doze anos na época, estava na sexta série e ele no primeiro ano do ensino médio. Era óbvio que ele gostava de mim antes e também depois daquele beijo, mas eu, que desde os sete anos sou quase impossível de me apegar, não conseguia gostar dele.

Apesar dele aceitar ficar comigo sem compromisso e de aceitar também o fato de que eu não gostava dele, a verdade é que achei nossa história muito triste. Eu me sentia uma rosa repleta de espinhos, nos quais ele passivamente aceitava furar-se. Estranho, ver alguém sofrendo e saber que é por sua causa.

Um dia, para fazer ciúmes, ele disse que estava cansado da situação e que ficaria com outra pessoa. Mas eu não o procurei. Também, por orgulho, ele nunca voltou, até aquele momento.

- Você não vai voltar pra cá?
- Nas férias, provavelmente.
- Digo, morar.
- Ah, não.
- Que pena.
- É.

Eu sabia que ele ia me beijar e não resisti. Quando estava sozinha com Anne e ela me perguntou o que houve eu respondi, sinceramente:

- Coisas de despedida.

sábado, 27 de outubro de 2012

Alma Maligna



Ana acordou com várias coisas em mente. Não era bonita, nem passava perto de academias. Naquele dia, porém, tinha separado uma máscara, lentes de contato coloridas, peruca e uma fantasia de Resident Evil - que ficava ridícula nela, mas era o único jeito de entrar com revolver e canivete na festa. Talvez tivesse a alma maligna. O que importa é que ela tinha tudo planejado para aquela noite.

Chegou na festa e, conforme imaginou, não teve problemas ao passar pelos seguranças. Em uma festa a fantasia, tudo tinha um ar de "coisa a mais". À meia noite, luzes vermelhas acenderam em todo o local e uma voz macabra - mas que perdeu seu ar de terror, uma vez que os alto-falantes eram visíveis - anunciou: "Que comece a noite do terror". A música eletrônica começou forte.

- Imagina o diabo numa salinha, falando no microfone. - Milena riu com as amigas.

Milena tinha belos olhos azuis e o cabelo longo, liso e tingido de preto. O nariz era levemente turvo, tinha silicone demais, maquiagem demais, e não se preocupava com muita coisa além de passar horas na academia. Não que algum homem se importasse. Naquele dia, ela acordou com suas futilidades de sempre: malhar, se arrumar e, depois, vestir uma roupa curtíssima e ir para mais uma festa, beber e se achar com suas melhores amigas. E era justamente o que estava fazendo.

Ana entrou no banheiro e colocou a máscara. Observava a festa de forma sádica. Imaginava o homem fantasiado de lobisomem se alimentando dos restos de um corpo caído no chão, arrancando a mão em uma grande dentada. A mastigação emitia um ruído de ossos se quebrando que seria extremamente desagradável para qualquer pessoa normal. Ana queria sorrir, mas apenas curvou um pouco o canto da boca, aprovando a própria construção.

Pouco depois, Milena se afastou das amigas e caminhou até o bar, para pedir o terceiro drink da noite. Estava lá há vinte minutos, mas processava bebidas muito rapidamente. Achava que isso mostrava superioridade. Ana se aproximou dela, imaginando que uma lixa invisível cairia bem naquele momento. Milena começaria a gritar porque seria esfolada viva, misturando o vermelho de sua carne e de seu sangue.

Por um instante, considerou desistir do plano todo, apenas para arrancar cada pedaço de sua pele com o canivete. Restabeleceu-se, porém, seguindo na direção daquela menina esnobe. Delicadamente, passou a mão no cabelo dela e sussurrou em seu ouvido.

- Você é linda.

Conhecia aquele ego enorme. De fato, Milena virou e sorriu. Por um instante, apenas mediu Ana, enquanto dizia lentamente "Obrigada". Depois, se aproximou e deu-lhe um beijo no pescoço, o que fez Ana lutar para segurar a ânsia de vômito. Se apenas pudessem ver sua alma, saberiam que é maligna.

- Que cheiro bom.

Milena beijava o pescoço de Ana, subindo em direção à sua boca. Quando se aproximou, Ana virou o rosto, segurou sua mão e sorriu, convidando-a.

- Vem.

sábado, 13 de outubro de 2012

Hipermetropia

- Acabou.
Eu tentava enxergá-lo, mas não conseguia. Aquele rosto, que um dia já fez meu coração disparar, agora resumia-se a um borrão.
- Acabou. - Repeti, vazia.

Tentava vê-lo, mas não conseguia. Por que estava tão embaçado? Minha cabeça doía, como se eu estivesse há horas debruçada sobre livros intermináveis. "Minha vista está cansada", considerei. Mas por que?
- Então, é isso.

Ele não fazia perguntas, apenas afirmava, como se me dissesse "Você não tem outra escolha". Até sua voz parecia distorcida. Por que meus sentidos estavam cansados?
- É...

Não consegui completar a frase. Estava deixando um detalhe passar. Ele deu as costas e ia embora, enquanto eu tentava lembrar o detalhe. Então notei aquelas cinzas. De onde vieram? Eu sequer vi as chamas que destruíram tudo.

Minha vista está cansada, é isso. Eu a forcei demais - forcei todos os meus sentidos - enquanto olhava para as cinzas e tentava ver o que, um dia, foi o nosso amor. Em minha hipermetropia, sequer percebi quando tudo desabou.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Sonho

Estava deitada na grama e o sol forte irritava meus olhos. Uma mão posicionou-se em frente ao meu rosto, protegendo-o daquele brilho ofuscante.

Meu coração disparou, como sempre, mas naquele momento achei adorável. Matheus estava sentado ao meu lado, apenas olhando para mim, com um sorriso idiota, como se eu fosse algo precioso.
- Melhorou?
- Sim, obrigada.

Então ele se aproximou e empurrou a perna debaixo da minha cabeça, forçando que eu a erguesse e deitasse em seu colo.
- Delicadeza. - Eu ri.
- Já passou seu tempo de ser rude comigo.

Fiquei em silêncio. Tivemos tantas fases ruins, fomos imaturos, arrogantes. Ali estávamos em paz, um aceitando a presença do outro. Eu aceitando o que sentia por ele. Só poderia ser um sonho.

Olhei para o lado. Estávamos perto da margem de um lago imenso. Na outra margem, a quilômetros de distância, eu avistava muitas árvores.
- Que lugar lindo.
- Escolhi pra combinar com você.
- Aham...

Ele colocou o indicador em meus lábios antes que eu pudesse dizer outra coisa, então se aproximou e me beijou. Aquela posição devia ser desconfortável pra ele, mas não parecia se importar. Estranho, ver alguém como ele apaixonado, e justamente por mim. Mas eu precisava admitir que...
- Matheus?
- Oi?
- Eu te...

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Chapeuzinho Vermelho - Parte 2

Foi difícil adaptar sua visão à escuridão do bosque. Poderia ter tomado o dobro do tempo usual, e o forte cheiro de bolor também a incomodava. Ela entrou devagar, observando atentamente entre galhos e no chão, em busca de seu delicado envelope. Em poucos passos toda claridade havia se extinto daquele lugar. 

Cíntia passou a se preocupar. Sua respiração se tornava mais sofrida com o odor fortíssimo de bolor, a escuridão não lhe permitiria encontrar o envelope mesmo que estivesse em sua frente. Quando virou para dar meia volta, seus pés enroscaram em um galho e ela caiu. O barulho quebrou o silêncio, até então predominante no bosque.

Foi caída no chão, tentando desenrolar sua perna da armadilha oculta nas trevas, que escutou. Era uma sequência de uivos longos, que pareciam anunciar sua presença, talvez até comemorá-la. Sentiu um calafrio percorrer sua espinha, suou frio. Não parecia estar perto, nem longe, o que a apavorou ainda mais. Exultou-se para tentar arrebentar os galhos que a prendiam, então percebeu que estes possuíam pequenos espinhos: perfurou toda a mão esquerda.

O líquido quente escorria por sua mão, mas ela conseguiu se desvincilhar dos galhos. Queria gritar, mas estava paralisada pelo medo. E se gritasse e o lobo a encontrasse mais rápido? Tentou correr, mas sua falta de sentidos pesava. Além disso, havia o pânico: ela não pensou para que lado correu, apenas o fez. Poderia estar adentrando ainda mais no bosque, naquele exato momento.

Era tão pequeno, aquele bosque escuro. Mal cobriria uma quadra. Naquele momento, porém, parecia tão imenso quanto o mar. Como jamais ouvira um lobo uivar, durante todos aqueles anos? Talvez porque jamais alguém entrara ali antes - o lobo devia estar faminto, e finalmente a comida chegou em sua toca.

Chapeuzinho Vermelho - Parte 1

Apesar do belo sol que raiava naquela manhã de terça-feira, Cíntia usava um capuz vermelho por causa do vento. Nas sombras, o frio fundia-se à forte ventania e a sensação de inverno rigoroso predominava. Era outono e todas as árvores perdiam suas folhas. Apenas algumas resistiam heroicamente, expondo pouquíssimos galhos ainda floreados.

Cíntia vivia em uma pequena cidade que, assim como todas, possuía sua própria lenda. Ali, era o bosque. Não havia estação em que suas árvores de galhos retorcidos, emaranhados e sem flores deixassem de transmitir a terrível sensação de que aquele lugar era sombrio. Ninguém ousava se aproximar da entrada do bosque, um pequeno espaço entre as árvores coladas, que mais parecia a passagem de um animal.

Pois Cíntia não se preocupava com o bosque naquela manhã. Ajudava o fato de que viveu em sua frente durante toda a vida e jamais ouvira um ruído, muito menos vira algo estranho, o que a fazia desacreditar as faláceas. O principal motivo, porém, era a carta de amor que segurava.

Custou-lhe tanto escrever aquela carta. Precisou refazê-la milhões de vezes, devido às mãos trêmulas. Depois mais tantas n vezes, porque desistia, de medo, e a amassava - então recriava coragem e precisava refazer o trabalho. Até possuía olheiras acumuladas ao longo daquela pesarosa noite.

Ele também morava em frente ao bosque, duas casas à esquerda de Cíntia. Ela jamais se esqueceu daquela noite na infância, em que aquele garoto grosseiro a empurrou e ele surgiu e a defendeu, como se não tivesse metade do tamanho do adversário. Ela podia escutar perfeitamente aquela voz infantil em sua cabeça, como se não fizesse dez anos. "Deixa ela em paz!".

Com o tempo, a gratidão eterna transformou-se em amor. Ele, de fato, continuava franzino. Usava óculos, pois a miopia passou a fazer parte da sua vida aos onze anos. Tinha um colete xadrez que parecia fazer parte de seu corpo. Ninguém entenderia porque a bela loura de olhos verdes o amava. Ademais, seriam um casal tão esquisito.

Acontece que ela o viu antes do previsto. Ele estava saindo de casa adiantado naquela terça-feira. O milimetricamente planejado encontro na escola foi pelos ares. Por nervosismo e descuido, seus braços se tornaram moles e a carta voou para um destino não menos insólito do que o bosque. No impulso, Cíntia correu para resgatá-la: e se chegasse às mãos de alguém?

domingo, 29 de julho de 2012

Bela Adormecida

Queria ser como os filmes. Desejava, literalmente, viver um romance. Uma hora e meia de encontros e desencontros água com açúcar, seguido de um "felizes para sempre". Ingênua, é como a classificavam. Mas quem, por céus, jamais quis as coisas assim, tão fáceis?

Uma vez, recebeu um buquê de flores. De quem? Não se sabe. Passou a se arrumar mais, procurar por seu príncipe encantado. Olhava para todos os homens e realizava minuciosa análise "será que é você?". Não soube, ele não apareceu.

Assim se passou uma semana. Ela começou a se desesperar, pois as flores murchavam rapidamente. Ninguém aparecia. Precisou jogar o buquê no lixo numa quarta-feira feia e chuvosa. Jogou e depois trancou-se no quarto, chorando alucinadamente. Era como se a perda daquelas flores significasse também a perda de seu amor.

No dia seguinte, porém, recebeu uma única rosa e um cartão. "Não busque por mim, nem mencione minha existência. Rasgue esse cartão, queime-o. Quero seu coração, não os seus olhos. Todos os dias mandarei uma flor a você. Guarde todas. Quando completar novamente um buquê com vinte e duas rosas, como o primeiro que lhe enviei, durma à noite com o novo buquê ao seu lado. Eu virei acordá-la pela manhã, com uma surpresa especial para você".

Novamente ela chorou, dessa vez de alegria. Todos os que zombaram sua obsessão pelos filmes... faltava tão pouco para ter o príncipe ao seu lado, um final feliz. Mais que um romance, aquilo era um conto de fadas.

Os dias passaram se arrastando. Às vezes não sabia o que fazer: o relógio não andava, parecia regredir no tempo. Quando o tão sonhado dia chegou, arrumou-se por horas, somente para dormir. Pensou em passar batom, mas e se o príncipe quisesse beijá-la? Achava que não conseguiria adormecer de tanta ansiedade, mas enganou-se: adormeceu tão rápido que sequer percebeu, ainda com o buquê em mãos.

Perto das três da manhã, ele chegou. Sem nenhuma luz para iluminar seu rosto, deslocava-se entre as trevas. Seu passo era lento, não como quem não deseja acordá-la, mas como quem esperou tanto por aquele momento que o tempo deixou de existir. Chegou perto do corpo e curvou-se para contemplá-la. No silêncio da mais profunda noite, era possível até ouvir seus batimentos. Sentiu o desejo tomar conta de si. Estava acontecendo. Ela estava ali, em sua frente.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Boca dura

- A senhora precisa de ajuda?
- Não, só to dando uma olhada.
- Quer aproveitar pra fazer um cartão da loja?
- Eu tenho 17.
- A partir dos 16 você já pode fazer o cartão, só trazer seus pais aqui, eles assinam uma autorização e...
- Então eu tenho 15.

Melhor amigo do homem


Meu vizinho tinha um Husky siberiano, lobo maravilhoso, com um olho azul e outro castanho, os pelos acinzentados e brancos. Tão bonito que causava inveja tanto a nós, vizinhos admiradores de cães, quanto aos próprios mascotes dos arredores.

Teófiles, ainda meio filhote, possuía apenas um ano e meio. Era brincalhão e se entendia com crianças, permitindo até as manobras mais ousadas, como puxar-lhe o rabo, as orelhas, ou tentar montá-lo como um cavalo.

Sendo o Husky uma raça de puxar trenós, todos os domingos o vizinho organizava uma brincadeira que os pequenos adoravam. Havia uma caixa de madeira, à qual, brilhantemente, os moleques conseguiram anexar rodinhas. Estava segura à uma guia, cuja outra extremidade era presa ao cão, que saía correndo pela quadra. Era permitida apenas uma criança por vez, para não sobrecarregá-lo, mas ele mantinha o pique por horas, atendendo a todas.

Seu dono tinha uns vinte e tantos anos e morava apenas com o cão, dividindo com ele todo o seu tempo livre. Saíam diariamente para caminhar, assistiam TV e até a casinha de Teófiles ficava no mesmo quarto.

Um dia, ao sair de casa para ir ao trabalho, como fazia todas as manhãs com seu Corsa vermelho, não percebeu que o portão não havia fechado. Ao voltar, nove horas depois, assustou-se com o portão aberto e entrou desesperado. Antes mesmo de conferir se havia sido roubado, gritou por Teófiles. Nada. Colocou em todos os lugares que pôde a foto do cão. Até procurei, mas sem resultados.

Uns dois meses depois, quando o vizinho já havia comprado e se entendido com um boxer, passei com meu carro na rua e vi o cão deitado ao canto do asfalto. Nem o reconheceria, não fossem os olhos heterocrômicos: estava quase sem pelo por causa da sarna, muito mais magro e com parte da orelha esquerda comida.

Ele não se mexia e provavelmente acabaria sendo atropelado caso não o fizesse. Estacionei o carro e, quando ele me viu, balançou o rabo e se esforçou para levantar. Aí descobri o problema: estava com a pata direita traseira quebrada, gemeu de dor. Levantei-o e, sem ligar para as moléstias, coloquei-o no banco de trás e fui direto para a casa do vizinho. Ele ia ficar tão feliz quando visse Teófiles.

Chegando lá, animou-se com a notícia, mas assim que viu o estado do cão veio com uma conversa de que não iria querer dois cachorros, não caberia no orçamento, não tinha tempo para cuidar, isso e aquilo.

Pois fui eu quem levou Teófiles ao veterinário. Uns banhos, ele andava com a pata engessada pra lá e pra cá por quatro meses, uma figura. Ainda chora feito uma coisa quando olha para a casa do vizinho, ou o vê passeando na rua com seu novo cão.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Busca

- Estive procurando pelo amor esses dias...
- Que?
- Pois é, sei que esse não é o tipo de coisa que se procura, mas resolvi tentar a sorte...
- Não, não, caro amigo. Que é esse tal de amor?
- Está brincando?
- Desconheço tal termo.
- Não é um termo, é um sentimento.
- E se parece com o que?
- Com tudo.
- Como tudo? Parece com alegria ou com tristeza?
- Ambos.
- Como é possível?
- Porque amor é o motivo de se viver. Sem amor não há vida. É um todo.
- Ah!
- Que é?
- Quem diria, tenho um amigo humorista.

sábado, 2 de junho de 2012

Coração partido

- Estou com o coração partido.
- Que és um coração partido? - perguntou-me o desapegado.
- É que meu coração anda apertado. Apertado é uma forma de amenizar... ele foi apertado assim, uns tempos atrás, tão bruscamente que quebrou em milhares de pedacinhos. E agora andam pisando nos pedacinhos, pra completar...
- Mas nossa, isso acontece mesmo?
- Acontece...
- E que fazes? Junta os pedaços?
- Na inocência, amigo, tentei...
- Inocência?? Que aconteceu?
- Coração é assim... que nem um copo de vidro, não que nem quebra-cabeças... não dá pra juntar e, digamos que alguém conseguisse... não seria a mesma coisa, jamais.
- O que parte um coração?
- A gente deixar pessoas que não cuidam, ficarem com ele...
- E porque deixaste uma coisa dessas??
- Só amor, caro amigo. Só amor...
- E agora, vai viver o resto da vida assim?
- Vou, juntando o que der
- Estranho tu.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Pinguim


Sentia frio, era o que sabia. O inverno era forte e o tempo estava mais desanimador a cada dia. Primeiro frio, depois nublado, chuva e aí chuva com vento forte.

No local de trabalho, por cuidado com a saúde dos funcionários, as janelas eram mantidas abertas, inclusive quando chovia e molhava a mesa do pobre estagiário que ali embaixo ficava.

O homem tinha o nariz grande e turvo na ponta, o que já o tornava alvo de piadas. Seus olhos eram escuros e ele mantinha aberto o casaco preto de mangas compridas, expondo a camisa branca de uniforme do serviço.

Nunca cuidou muito da postura, mas naqueles dias de inverno a questão era outra. Havia se tornado totalmente encolhido, como um velhinho. Andava quase se arrastando, como se fosse uma máquina cujas engrenagens travaram pelo frio. Somando-se ao restante da aparência, concederam o apelido que o marcou pelo resto da vida: pinguim.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Encontro

Caminhava sobre aquele chão tão fino, tão macio, que parecia pedacinhos de seda. Era claro e até refletia o sol. Havia tanta gente, todos competindo por um espaço para pisar naquela espécie de nuvem, que misteriosamente conseguia transmitir uma sensação de firmeza aos pés. Ali, simplesmente não precisavam se preocupar com nada.

Apesar da sensação de conforto, resolveu continuar a atravessá-la. "Não era tão longa", pensou, arrependendo-se de não ter dado passos mais curtos, mais lentos, e aproveitado melhor. Logo estava diante da imensidão. No horizonte, fundia-se com o céu, formando um todo azulado, quase que uma pintura. Maravilhado, pela primeira vez aquele pequeno menino encontrou o mar.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Metades


- Já parou pra imaginar um mundo em que você existisse sem mim?
Ele me perguntou, um dia. Encarava-me com olhos que não eram curiosos, mas esperançosos, de quem esperava que eu desse a resposta que ele secretamente imaginara.
- Já.
Seu rosto entristeceu. "Como é bobo", pensei e sorri por dentro. Sem querer, sorri por fora também.
- Foi bom, pelo jeito.
- Não.
- Foi ruim?
- Não.
- Então o que?
Perguntou-me, sem entender. Tentei ficar séria e talvez tenha conseguido por demais.
- Foi inexistente. Não existe um mundo pra mim em que não exista você. Eu mesma não sou mais eu, sou um pedaço meu e um pedaço teu... não como metades juntas, mas como se fossemos um só.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Entendendo

Percebeu que o estava desculpando por não amá-la tanto: era o que estava fazendo o tempo todo. Sem graça, observou que amor não é algo que se desculpa, mas se entende.

Então, sem dizer nada, foi embora. Queria apenas que ele entendesse também: agora ela encontraria alguém que a amasse tanto quanto ela o amava.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Capuz


- Você já se apaixonou?

Eu devia estar esperando por essa pergunta, justamente porque ele era a pessoa mais convencida do mundo: provavelmente achava que eu exclamaria "Sim! Por você! Todos os dias!". Eu não sentia isso e, mesmo se sentisse, jamais diria.

- Se apaixonar pra que? Passar anos se lamentando, por uma miséria de memórias que nem são lá tão boas...

Não houve resposta, mas também não ficamos em silêncio. Matheus puxou a mochila, que estava em suas costas, e começou a buscar algo lá dentro.

- O que você está fazendo?

Não soube decifrar sua reação e não tive muito tempo para fazê-lo. Ele puxou o moletom preto da Vans, aquele que eu secretamente adorava, e vestiu. O mesmo moletom de que ele puxou o capuz em um dia de chuva, umas semanas atrás. Apenas puxou e foi embora, como se fosse então imune ao tempo.

- Você é fria pra caralho, Líliam.

Ele foi embora, exatamente como naquele dia, mas não havia chuva. Talvez agora fosse imune a mim.