De todos os contos que já escutei
sobre a Morte, a minha preferida é a que a minha mãe me contou uma vez, quando
eu era criança. Eu deveria ter uns quatro anos na época, guardei em minha
memória como se tivesse escutado ontem.
Muito tempo atrás, a Morte
perambulava pelo mundo, colhendo as almas cujo tempo na Terra havia se esgotado.
Em uma de suas visitas, a um vilarejo longínquo, ela se deparou com um cenário
deslumbrante. Um rio, árvores com flores como ela jamais havia visto, com
flores e pétalas que reluziam ao brilho do luar, e águas tão translúcidas que refletiam
a lua como um espelho. “Tudo parece mais bonito daqui”, refletiu a Morte.
Admirada, ela não queria ir
embora daquele lugar – queria descobrir cada centímetro dele, o segredo de
tamanha beleza, e contemplar aquele cenário todos os dias. Ela passou dias
pensando, e durante esses dias, com muita tristeza, continuou a buscar e
encaminhar almas para o seu descanso.
Então, lembrou-se dos anjos, e
decidiu criar seus próprios ajudantes, que chamou de ceifeiros. Com o
nascimento deles, a Morte voltou, radiante, para o local, e estabeleceu seu lar
do outro lado do rio, para não conviver com os homens, e poder admirar em
completa paz aquela paisagem onírica.
Passados alguns meses, porém,
percebeu que a população do local matava os peixes, colhia as flores, derrubava
árvores. Irada, atravessou o rio, com o intuito de colher todas as almas e
ficar com a paisagem apenas para si. Porém, um de seus ceifeiros percebeu a
situação, e convenceu-a a conversar com o líder do local e tentar um acordo.
O ancião e a Morte combinaram de
que a população iria se retirar dos arredores do rio, e que todos estavam
proibidos de tocar naquela paisagem novamente. E, assim, ela ficou com toda
aquela paisagem intacta e para si, durante muitos anos.
Um dia, entretanto, uma menina,
que não deveria ter mais de quatro anos, perdeu-se enquanto brincava e chegou
às margens do rio. A Morte observou-a se aproximar e beber da água, então se
aproximou para puxá-la para dentro e afogá-la. Novamente, o mesmo ceifeiro
apareceu, e disse a ela que não era chegada a hora daquela criança, que ela não
sabia do acordo, nem tinha más intenções.
Irritada, a Morte não se
convenceu e apontou que não abriria nenhuma exceção ao acordo, ou correria o
risco de mais pessoas encontrarem seu refúgio. Tranquilo, o ceifeiro lhe disse
que, ao levar aquela criança, estaria levando consigo não apenas ela antes do
tempo, mas um pedaço do coração de cada mãe do mundo.
Intrigada, a Morte pediu ao
ceifeiro que explicasse, e ele explicou que, enquanto a Morte admirava aquele
pequeno paraíso, haviam vários outros lugares no mundo para se descobrir, e
contou-lhe de cataratas, cavernas, florestas pelos quais passou para levar
aventureiros, mas que nenhum lugar lhe chamou tanta atenção como o coração
humano, especialmente o coração de mãe.
A Morte ficou surpresa, mas não
compadeceu: afogou a criança no lago e eliminou aquele ceifeiro, que ela considerou
subversivo. Porém, pela primeira vez em anos, abandonou aquele espaço para
investigar de onde ele tirou tal absurdo.
Em um primeiro momento, estranhou
o mundo, pois passou muito tempo isolada em seu paraíso particular. Porém,
quando acostumou-se novamente com os homens, tentou olhar além deles e pode ver
que o ceifeiro não mentia: dentro do coração de cada mãe havia uma pequena
lacuna, como se tivesse sido furado com uma agulha.
Curiosa, observou que as mães
amavam tanto que seus corações compadeciam também pelos filhos dos outros, e
que, quando aqueles filhos partiam, uma parte delas partia junto. A Morte, então,
voltou, disfarçada, ao vilarejo, e perguntou sobre a mãe da criança, ao que
descobriu que faleceu, no mesmo dia da filha, de parada cardíaca.
Sentindo-se culpada por ter arrancado
a vida da criança, de um de seus ceifeiros e daquela mãe, a Morte procurou o ancião
para abrir mão da trégua. Como sinal de arrependimento, foi pessoalmente buscar
as almas em seus locais de descanso para levá-las de volta à Terra.
Ali, percebeu que a mãe e a filha
brincavam juntas, e estavam em paz com seu destino, e que o ceifeiro estava em
um campo vazio. Aproximou-se dele e ofereceu para que voltasse, mas assustou-se
com a negativa. O que faria em um campo vazio como aquele? Com isso, o ceifeiro
pediu à Morte para que olhasse para cima, e ela se encantou com a quantidade de
estrelas, que reluziam como diamantes.
“Não são estrelas”, explicou o
ceifeiro, “esses são os pedacinhos do coração de cada mãe. A cada noite esse
céu cresce e fica mais e mais reluzente com o amor delas pelos filhos. Nesse
amor é onde eu encontro o meu refúgio”.
Compadecida, a Morte voltou à
Terra, mas nunca mais conseguiu olhar a vida da mesma forma. Recolheu todos os
seus ceifeiros, e passou a ir ela mesma buscar todas as almas, para não perder
mais do mundo.
À noite, subia no ponto mais alto
de cada cidade para ver o reluzir do amor de todas as mães. A cada criança que
levava, ia pessoalmente visitar aquele ceifeiro, apenas para contemplar o céu,
e surpreender-se com a forma como ele parecia aumentar cada vez mais e mais, para
receber todo aquele amor.
Então, a Morte passou a se
emocionar, e eventualmente entendeu que passou a amar também. Ela criou uma
janela, que permitia às mães olhar por seus filhos que ficaram no mundo dos
vivos, e beijar-lhe a testa antes de dormirem.
Poucos dias depois que minha mãe contou
essa história, seu coração, que sempre foi grande demais, não deu conta de
tanto amor e decidiu parar. E eu fiquei me perguntando se ela olhava por mim,
pela janelinha que a Morte criou. Às vezes, jurava que sentia seu beijo em minha
testa antes de dormir.