sábado, 27 de outubro de 2012
Alma Maligna
Ana acordou com várias coisas em mente. Não era bonita, nem passava perto de academias. Naquele dia, porém, tinha separado uma máscara, lentes de contato coloridas, peruca e uma fantasia de Resident Evil - que ficava ridícula nela, mas era o único jeito de entrar com revolver e canivete na festa. Talvez tivesse a alma maligna. O que importa é que ela tinha tudo planejado para aquela noite.
Chegou na festa e, conforme imaginou, não teve problemas ao passar pelos seguranças. Em uma festa a fantasia, tudo tinha um ar de "coisa a mais". À meia noite, luzes vermelhas acenderam em todo o local e uma voz macabra - mas que perdeu seu ar de terror, uma vez que os alto-falantes eram visíveis - anunciou: "Que comece a noite do terror". A música eletrônica começou forte.
- Imagina o diabo numa salinha, falando no microfone. - Milena riu com as amigas.
Milena tinha belos olhos azuis e o cabelo longo, liso e tingido de preto. O nariz era levemente turvo, tinha silicone demais, maquiagem demais, e não se preocupava com muita coisa além de passar horas na academia. Não que algum homem se importasse. Naquele dia, ela acordou com suas futilidades de sempre: malhar, se arrumar e, depois, vestir uma roupa curtíssima e ir para mais uma festa, beber e se achar com suas melhores amigas. E era justamente o que estava fazendo.
Ana entrou no banheiro e colocou a máscara. Observava a festa de forma sádica. Imaginava o homem fantasiado de lobisomem se alimentando dos restos de um corpo caído no chão, arrancando a mão em uma grande dentada. A mastigação emitia um ruído de ossos se quebrando que seria extremamente desagradável para qualquer pessoa normal. Ana queria sorrir, mas apenas curvou um pouco o canto da boca, aprovando a própria construção.
Pouco depois, Milena se afastou das amigas e caminhou até o bar, para pedir o terceiro drink da noite. Estava lá há vinte minutos, mas processava bebidas muito rapidamente. Achava que isso mostrava superioridade. Ana se aproximou dela, imaginando que uma lixa invisível cairia bem naquele momento. Milena começaria a gritar porque seria esfolada viva, misturando o vermelho de sua carne e de seu sangue.
Por um instante, considerou desistir do plano todo, apenas para arrancar cada pedaço de sua pele com o canivete. Restabeleceu-se, porém, seguindo na direção daquela menina esnobe. Delicadamente, passou a mão no cabelo dela e sussurrou em seu ouvido.
- Você é linda.
Conhecia aquele ego enorme. De fato, Milena virou e sorriu. Por um instante, apenas mediu Ana, enquanto dizia lentamente "Obrigada". Depois, se aproximou e deu-lhe um beijo no pescoço, o que fez Ana lutar para segurar a ânsia de vômito. Se apenas pudessem ver sua alma, saberiam que é maligna.
- Que cheiro bom.
Milena beijava o pescoço de Ana, subindo em direção à sua boca. Quando se aproximou, Ana virou o rosto, segurou sua mão e sorriu, convidando-a.
- Vem.
sábado, 13 de outubro de 2012
Hipermetropia
- Acabou.
Eu tentava enxergá-lo, mas não conseguia. Aquele rosto, que um dia já fez meu coração disparar, agora resumia-se a um borrão.
- Acabou. - Repeti, vazia.
Tentava vê-lo, mas não conseguia. Por que estava tão embaçado? Minha cabeça doía, como se eu estivesse há horas debruçada sobre livros intermináveis. "Minha vista está cansada", considerei. Mas por que?
- Então, é isso.
Ele não fazia perguntas, apenas afirmava, como se me dissesse "Você não tem outra escolha". Até sua voz parecia distorcida. Por que meus sentidos estavam cansados?
- É...
Não consegui completar a frase. Estava deixando um detalhe passar. Ele deu as costas e ia embora, enquanto eu tentava lembrar o detalhe. Então notei aquelas cinzas. De onde vieram? Eu sequer vi as chamas que destruíram tudo.
Minha vista está cansada, é isso. Eu a forcei demais - forcei todos os meus sentidos - enquanto olhava para as cinzas e tentava ver o que, um dia, foi o nosso amor. Em minha hipermetropia, sequer percebi quando tudo desabou.
Eu tentava enxergá-lo, mas não conseguia. Aquele rosto, que um dia já fez meu coração disparar, agora resumia-se a um borrão.
- Acabou. - Repeti, vazia.
Tentava vê-lo, mas não conseguia. Por que estava tão embaçado? Minha cabeça doía, como se eu estivesse há horas debruçada sobre livros intermináveis. "Minha vista está cansada", considerei. Mas por que?
- Então, é isso.
Ele não fazia perguntas, apenas afirmava, como se me dissesse "Você não tem outra escolha". Até sua voz parecia distorcida. Por que meus sentidos estavam cansados?
- É...
Não consegui completar a frase. Estava deixando um detalhe passar. Ele deu as costas e ia embora, enquanto eu tentava lembrar o detalhe. Então notei aquelas cinzas. De onde vieram? Eu sequer vi as chamas que destruíram tudo.
Minha vista está cansada, é isso. Eu a forcei demais - forcei todos os meus sentidos - enquanto olhava para as cinzas e tentava ver o que, um dia, foi o nosso amor. Em minha hipermetropia, sequer percebi quando tudo desabou.
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
Sonho
Estava deitada na grama e o sol forte irritava meus olhos. Uma mão posicionou-se
em frente ao meu rosto, protegendo-o daquele brilho ofuscante.
Meu coração disparou, como sempre, mas naquele momento achei adorável. Matheus estava sentado ao meu lado,
apenas olhando para mim, com um sorriso idiota, como se eu fosse algo precioso.
- Melhorou?
- Sim, obrigada.
Então ele se aproximou e empurrou a perna
debaixo da minha cabeça, forçando que eu a erguesse e deitasse em seu colo.
- Delicadeza. - Eu ri.
- Já passou seu tempo de ser rude comigo.
Fiquei em silêncio. Tivemos tantas fases ruins, fomos imaturos, arrogantes.
Ali estávamos em paz, um aceitando a presença do outro. Eu aceitando o que
sentia por ele. Só poderia ser um sonho.
Olhei para o lado. Estávamos perto da margem de um lago imenso. Na outra
margem, a quilômetros de distância, eu avistava muitas árvores.
- Que lugar lindo.
- Escolhi pra combinar com você.
- Aham...
Ele colocou o indicador em meus lábios antes que eu pudesse dizer outra coisa, então se aproximou e me beijou. Aquela posição devia ser desconfortável
pra ele, mas não parecia se importar. Estranho, ver alguém como ele apaixonado,
e justamente por mim. Mas eu precisava admitir que...
- Matheus?
- Oi?
- Eu te...
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