domingo, 28 de agosto de 2011

Traição psicológica

Começa assim:
- Você já me traiu?
E a resposta óbvia:
- Claro que não, meu amor.

Mesmo se tivesse traído, você não diria. Os mais inseguros inclusive treinam na frente do espelho a expressão facial "adequada", normalmente uma mistura de choque e indignação "Mas como uma pergunta dessas??? Eu nunca trairia você! Imagine... como pode, tamanha falta de...". Amadores. Já os mais experientes respondem com segurança, mas não tão exagerada a ponto de parecer declaração de amor à pátria. "Claro que não, meu amor", simples assim.

Pois é. Nesses dias dei de cara com uma pergunta que não era essa.
- Digo, você já se imaginou com outra mulher que não fosse eu?
Fiquei surpreso. Desde quando isso é trair?

Mas essa pergunta levanta uma questão a todos nós, homens e mulheres. Quem nunca traiu em pensamento? Nem é por querer, e não são só os homens não. Meninas, vocês assistem essas coisas de Crepúsculo, esperando o "vampirão" morder vocês (sei lá porque acham isso obsceno) e reclamando que não somos como o Edward: não julgamos vocês por isso.

Também, ninguém controla a imaginação. Sei disso por causa de um exercício nada a ver que fizemos em sala de aula, cada um dizia em que tava pensando. Acha que a gordinha imaginava comida? Que nada, sua mente estava no Egito, fugindo de múmias recém ressucitadas pela Pedra Filosofal do Harry Potter. E a maior viagem não foi dela não.

O que estou tentando dizer é que pessoas "traem" mentalmente, porque nosso pensamento é uma loucura, totalmente fora de controle. Nem caberia aí a palavra trair, defendo o termo "se aventurar". Não que eu esteja o tempo todo pensando em outras pessoas e lugares, só que às vezes saio da casinha. Todo mundo não faz isso? Faz.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Caixa Postal


Sonhei que você tinha deixado uma mensagem na minha caixa postal, dizendo que estava cansado. Antes que eu pudesse ouvir o resto, acordei.

Mas pense, que coincidência boba, havia mesmo uma nova mensagem de voz aqui. Queria ouvir, mas não tenho créditos e não consegui fazer recarga esta tarde, a operadora fora do ar.

Hoje você não apareceu e eu passei o dia inquieta. Por acaso, não foi você? Se foi, não estava cansado? Ou estava cansado de que?


Tomara que não seja de mim, desaprendi viver sem você.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Bailarina

Sonhei que era outra pessoa, uma bailarina. Não dançava havia algum tempo, mas não sei ao certo quanto. Sentindo falta de um significado para a própria vida, resolveu que voltaria a dançar.

Na garagem de casa, vestiu as velhas sapatilhas que encontrou no quarto, jogadas a um canto do guarda-roupa. Ainda sabia ficar na ponta dos pés - "é como andar de bicicleta", pensou - mas estava desacostumada com a posição, os dedos reclamavam.

Devagar, começou a levantar a perna esquerda. Era difícil, ela sentia que iria se desequilibrar, mas continuava tentando. Um tombo não significava nada perto da glória de redescobrir-se. Pensou em apoiar-se na parede, mas relutou: precisava conseguir isso sozinha.

Esticou o braço direito delicadamente para frente e o esquerdo para trás, enquanto continuava subindo a perna e buscando seu ponto de equilíbrio. Os pés já não lhe chamavam mais a atenção. Na verdade, aquela sensação de que já havia feito tudo aquilo várias vezes lhe invadiu, fazendo com que se sentisse confortável.

Finalmente, conseguiu o ângulo desejado com as pernas, sem desequilibrar-se. Olhou para elas, que tremiam pelo esforço, mas obedientes em sua posição; depois conferiu os braços. Buscou mais delicadeza na postura e animou-se.

Sentiu forçar próximo à virilha, estava desacostumada e havia perdido parte da elasticidade do corpo. Mas a glória estava em redescobrir-se. Comprou novas sapatilhas e prometeu que treinaria todos os dias até atingir a perfeição.

Seus primeiros movimentos foram a repetição dos que fizera na garagem. Já estava preparada para eles, então não se desequilibrou. Tentou girar. A primeira vez foi desengonçada, ela se perdeu da posição inicial. Respirou fundo, imitando aulas de yôga que nunca teve. Recuperou o foco e tentou novamente. Uma, duas, três voltas. Foi rápido demais: ficou tonta e desequilibrou-se.

Reaprendeu a girar, então não ficava mais tonta, mas não conseguia a flexibilidade que desejava nas pernas. Tornou-se sua obsessão. No período de aula, das 8 às 12, treinava constantes movimentos de balé. Estava prestes a reprovar por falta. Não parava para descansar, nem comia. Também não fez tantos progressos como imaginava.

Sentou com a cabeça entre os joelhos. Sabia porque isso ocorria: seu corpo dançava e sua mente focava em milhares de defeitos existentes e imaginários em sua postura, em tudo, mas sabia que o verdadeiro problema estava dentro dela - sua vida, absolutamente vazia e sem rumo.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Sombra - parte 1

Era uma poltrona grande, esverdeada, com braços cuja coloração dourada já havia se desgastado pelo tempo. Quando se apagava a luz da sala onde ela estava, a sombra não era a de uma cadeira. Eram cabelos longos e lisos um corpo magro de mulher, provavelmente baixa, e apenas um braço que encontrava seu fim na perna da poltrona, antes de se tornar possível avistar as mãos, ou o que elas seguravam.

Dependendo da luz que se acendia nos quartos, a cabeça se inclinava levemente para um lado. Mas continuava com aqueles contornos que perfeitamente poderiam ser uma cabeça com cabelos lisos, os ombros cobertos pelos fios, aquele corpo pequeno, com apenas um braço, fino e misterioso. O outro braço era coberto pela escuridão da sala.

Desde que passou a morar sozinho, medroso como apenas ele poderia ser, tinha medo da sombra. Parou de assistir filmes de terror aos 12 anos quando percebeu que os prejuízos em seu sono eram imensos - às vezes ficava semanas sem conseguir dormir, esperando desesperadamente o cansaço vencê-lo. O problema é que ele não sabia o que ela tinha nas mãos. O outro problema é que ela poderia levantar a qualquer momento. Ó, céus, a sombra.

Desejava ter um botão automático, para desligar a luz e não precisar passar, logo em seguida, ao lado da sombra. Nunca pisava nela, ia cuidadosamente pelos cantos do estreito corredor que se formava entre os dois. Possuía rituais que eram rigorosamente cumpridos para que nenhuma atitude a irritasse.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Igreja

Fora da igreja, eram o que eram, homens e mulheres: médicos, pedreiros, desempregados, assassinos. Dentro eram todos um só, filhos de Deus.

Ela não gostava de igreja, mas não era por isso. Talvez porque fosse ruiva e, quando passava, todos olhavam seus cabelos de coloração rara. Isso a deixava desconfortável: nem na "casa do Senhor" era considerada uma igual, era a ruiva.

O auge de sua inquietação foi quando visitou a maior Igreja de sua cidade. O interior fazia lembrar uma casa de shows, com palco, teto baixo em comparação com as outras igrejas, paredes brancas, alto-falantes e inúmeras bancadas. Ficou até o fim para ver a enorme fila de doações de 20 reais "para acalmar as coisas com Deus" e pensar o que Ele iria querer com aquele monte de papel.

Nunca contou que não gostava das igrejas, ninguém a entenderia. No fundo só pensava por que tanto concreto, se a casa do Senhor já estava dentro do coração de cada um.

sábado, 13 de agosto de 2011

O porquê sou escritora

Oi gente, passei um tempo fora, não sei se perceberam... meu computador estragou. O que eu tenho pra falar poderia ser uma nota no facebook, mas resolvi colocar aqui. Sinto falta de postar.
Prometi que meu post de retorno se chamaria "Igreja". Digito depois, quero falar de outra coisa com vocês.

O PORQUÊ SOU ESCRITORA (PARA ESCRITORES)

Não sei se vocês sabem, mas escrever, pra mim, não é apenas um hobbie, vai além de twittar. Não valorizei, descobri isso quando perdi todos os dados do meu antigo PC: vários dos meus inacabados (e acabados) textos se foram para sempre. Quero falar sobre os inacabados.
Fui criança de prédio (condomínio, especificamente), odiava esportes e amava ver todos os desenhos animados. Naquela época eu desenhava também. Mandava mal, mas eu achava lindo. Minha mãe odiava aquela bagunça, jogou tudo fora. Aí passei a escrever.
Meus textos eram como os desenhos: não davam mais trabalho, não custavam menos tempo e nem contavam outras histórias. Sempre criava personagens com super poderes, que voassem para me contar como era o mundo.
Eu já não era tão novinha quando criei a Líliam, nem foi minha primeira personagem. Aos 10 anos as amigas dela já existiam, aos 13 ela surgiu e, quando eu estava com 14 anos, todas já possuíam um mundo completo.
Sempre tive relutância em escrevê-las. Tantos anos imaginando-as com perfeição televisiva (nossos mundos nunca se cruzaram), para entregá-las em poucas páginas. Pior, para imaginarem uma Líliam com cabelo ruivo de tom diferente, com nariz mais fino. Uma catástrofe.
Hoje*, conversei com a minha professora de língua portuguesa (a Ana Mira, não sei se vocês conhecem) e ela me disse algo. Depois que escrevemos o texto, ele não é mais nosso, é do leitor, que nunca vai ler do jeito que imaginamos; é preciso um desapego. Mas, que horror, me desapegar deles, o que a Líliam faria sem mim? Que horror, professora, eu os criei com tanto carinho para soltá-los ao mundo?
Bem que dizem que escritor é maluco. Taí o que estava errado: eu não conseguia escrever porque nunca quis transformar esses personagens em palavras. Nunca quis que os conhecessem em plenitude como apenas eu me considerava no direito de fazer. Bobagem.
Para reformular toda a história e pela primeira vez cruzá-la com a realidade, vou levar um tempo. E aí escrever tudo vai ser um sufoco. Por isso estou abrindo mão de "Subversão" (texto que usei na Oficina de Romance da Biblioteca Pública do Paraná).
Creio que só os escritores vão entender o que eu falei. São malucos também.

*"Hoje" se refere a 10 de agosto de 2011, data em que a versão escrita à mão foi feita.

O PORQUÊ SOU ESCRITORA (PARA NÃO-ESCRITORES)

Aos 13 anos, criei uma personagem chamada Líliam. Nunca consegui escrever a história dela, até que hoje resolvi parar tudo e tentar.