Sonhei que era outra pessoa, uma bailarina. Não dançava havia algum tempo, mas não sei ao certo quanto. Sentindo falta de um significado para a própria vida, resolveu que voltaria a dançar.
Na garagem de casa, vestiu as velhas sapatilhas que encontrou no quarto, jogadas a um canto do guarda-roupa. Ainda sabia ficar na ponta dos pés - "é como andar de bicicleta", pensou - mas estava desacostumada com a posição, os dedos reclamavam.
Devagar, começou a levantar a perna esquerda. Era difícil, ela sentia que iria se desequilibrar, mas continuava tentando. Um tombo não significava nada perto da glória de redescobrir-se. Pensou em apoiar-se na parede, mas relutou: precisava conseguir isso sozinha.
Esticou o braço direito delicadamente para frente e o esquerdo para trás, enquanto continuava subindo a perna e buscando seu ponto de equilíbrio. Os pés já não lhe chamavam mais a atenção. Na verdade, aquela sensação de que já havia feito tudo aquilo várias vezes lhe invadiu, fazendo com que se sentisse confortável.
Finalmente, conseguiu o ângulo desejado com as pernas, sem desequilibrar-se. Olhou para elas, que tremiam pelo esforço, mas obedientes em sua posição; depois conferiu os braços. Buscou mais delicadeza na postura e animou-se.
Sentiu forçar próximo à virilha, estava desacostumada e havia perdido parte da elasticidade do corpo. Mas a glória estava em redescobrir-se. Comprou novas sapatilhas e prometeu que treinaria todos os dias até atingir a perfeição.
Seus primeiros movimentos foram a repetição dos que fizera na garagem. Já estava preparada para eles, então não se desequilibrou. Tentou girar. A primeira vez foi desengonçada, ela se perdeu da posição inicial. Respirou fundo, imitando aulas de yôga que nunca teve. Recuperou o foco e tentou novamente. Uma, duas, três voltas. Foi rápido demais: ficou tonta e desequilibrou-se.
Reaprendeu a girar, então não ficava mais tonta, mas não conseguia a flexibilidade que desejava nas pernas. Tornou-se sua obsessão. No período de aula, das 8 às 12, treinava constantes movimentos de balé. Estava prestes a reprovar por falta. Não parava para descansar, nem comia. Também não fez tantos progressos como imaginava.
Sentou com a cabeça entre os joelhos. Sabia porque isso ocorria: seu corpo dançava e sua mente focava em milhares de defeitos existentes e imaginários em sua postura, em tudo, mas sabia que o verdadeiro problema estava dentro dela - sua vida, absolutamente vazia e sem rumo.
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