sexta-feira, 18 de maio de 2012
Pinguim
Sentia frio, era o que sabia. O inverno era forte e o tempo estava mais desanimador a cada dia. Primeiro frio, depois nublado, chuva e aí chuva com vento forte.
No local de trabalho, por cuidado com a saúde dos funcionários, as janelas eram mantidas abertas, inclusive quando chovia e molhava a mesa do pobre estagiário que ali embaixo ficava.
O homem tinha o nariz grande e turvo na ponta, o que já o tornava alvo de piadas. Seus olhos eram escuros e ele mantinha aberto o casaco preto de mangas compridas, expondo a camisa branca de uniforme do serviço.
Nunca cuidou muito da postura, mas naqueles dias de inverno a questão era outra. Havia se tornado totalmente encolhido, como um velhinho. Andava quase se arrastando, como se fosse uma máquina cujas engrenagens travaram pelo frio. Somando-se ao restante da aparência, concederam o apelido que o marcou pelo resto da vida: pinguim.
quarta-feira, 16 de maio de 2012
Encontro
Caminhava sobre aquele chão tão fino, tão macio, que parecia pedacinhos de seda. Era claro e até refletia o sol. Havia tanta gente, todos competindo por um espaço para pisar naquela espécie de nuvem, que misteriosamente conseguia transmitir uma sensação de firmeza aos pés. Ali, simplesmente não precisavam se preocupar com nada.
Apesar da sensação de conforto, resolveu continuar a atravessá-la. "Não era tão longa", pensou, arrependendo-se de não ter dado passos mais curtos, mais lentos, e aproveitado melhor. Logo estava diante da imensidão. No horizonte, fundia-se com o céu, formando um todo azulado, quase que uma pintura. Maravilhado, pela primeira vez aquele pequeno menino encontrou o mar.
Apesar da sensação de conforto, resolveu continuar a atravessá-la. "Não era tão longa", pensou, arrependendo-se de não ter dado passos mais curtos, mais lentos, e aproveitado melhor. Logo estava diante da imensidão. No horizonte, fundia-se com o céu, formando um todo azulado, quase que uma pintura. Maravilhado, pela primeira vez aquele pequeno menino encontrou o mar.
segunda-feira, 7 de maio de 2012
Metades
- Já parou pra imaginar um mundo em que você existisse sem mim?
Ele me perguntou, um dia. Encarava-me com olhos que não eram curiosos, mas esperançosos, de quem esperava que eu desse a resposta que ele secretamente imaginara.
- Já.
Seu rosto entristeceu. "Como é bobo", pensei e sorri por dentro. Sem querer, sorri por fora também.
- Foi bom, pelo jeito.
- Não.
- Foi ruim?
- Não.
- Então o que?
Perguntou-me, sem entender. Tentei ficar séria e talvez tenha conseguido por demais.
- Foi inexistente. Não existe um mundo pra mim em que não exista você. Eu mesma não sou mais eu, sou um pedaço meu e um pedaço teu... não como metades juntas, mas como se fossemos um só.
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