quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Sombra - parte 1

Era uma poltrona grande, esverdeada, com braços cuja coloração dourada já havia se desgastado pelo tempo. Quando se apagava a luz da sala onde ela estava, a sombra não era a de uma cadeira. Eram cabelos longos e lisos um corpo magro de mulher, provavelmente baixa, e apenas um braço que encontrava seu fim na perna da poltrona, antes de se tornar possível avistar as mãos, ou o que elas seguravam.

Dependendo da luz que se acendia nos quartos, a cabeça se inclinava levemente para um lado. Mas continuava com aqueles contornos que perfeitamente poderiam ser uma cabeça com cabelos lisos, os ombros cobertos pelos fios, aquele corpo pequeno, com apenas um braço, fino e misterioso. O outro braço era coberto pela escuridão da sala.

Desde que passou a morar sozinho, medroso como apenas ele poderia ser, tinha medo da sombra. Parou de assistir filmes de terror aos 12 anos quando percebeu que os prejuízos em seu sono eram imensos - às vezes ficava semanas sem conseguir dormir, esperando desesperadamente o cansaço vencê-lo. O problema é que ele não sabia o que ela tinha nas mãos. O outro problema é que ela poderia levantar a qualquer momento. Ó, céus, a sombra.

Desejava ter um botão automático, para desligar a luz e não precisar passar, logo em seguida, ao lado da sombra. Nunca pisava nela, ia cuidadosamente pelos cantos do estreito corredor que se formava entre os dois. Possuía rituais que eram rigorosamente cumpridos para que nenhuma atitude a irritasse.

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