sábado, 13 de outubro de 2012

Hipermetropia

- Acabou.
Eu tentava enxergá-lo, mas não conseguia. Aquele rosto, que um dia já fez meu coração disparar, agora resumia-se a um borrão.
- Acabou. - Repeti, vazia.

Tentava vê-lo, mas não conseguia. Por que estava tão embaçado? Minha cabeça doía, como se eu estivesse há horas debruçada sobre livros intermináveis. "Minha vista está cansada", considerei. Mas por que?
- Então, é isso.

Ele não fazia perguntas, apenas afirmava, como se me dissesse "Você não tem outra escolha". Até sua voz parecia distorcida. Por que meus sentidos estavam cansados?
- É...

Não consegui completar a frase. Estava deixando um detalhe passar. Ele deu as costas e ia embora, enquanto eu tentava lembrar o detalhe. Então notei aquelas cinzas. De onde vieram? Eu sequer vi as chamas que destruíram tudo.

Minha vista está cansada, é isso. Eu a forcei demais - forcei todos os meus sentidos - enquanto olhava para as cinzas e tentava ver o que, um dia, foi o nosso amor. Em minha hipermetropia, sequer percebi quando tudo desabou.

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