domingo, 1 de janeiro de 2017

Um conto sobre a morte

De todos os contos que já escutei sobre a Morte, a minha preferida é a que a minha mãe me contou uma vez, quando eu era criança. Eu deveria ter uns quatro anos na época, guardei em minha memória como se tivesse escutado ontem.
Muito tempo atrás, a Morte perambulava pelo mundo, colhendo as almas cujo tempo na Terra havia se esgotado. Em uma de suas visitas, a um vilarejo longínquo, ela se deparou com um cenário deslumbrante. Um rio, árvores com flores como ela jamais havia visto, com flores e pétalas que reluziam ao brilho do luar, e águas tão translúcidas que refletiam a lua como um espelho. “Tudo parece mais bonito daqui”, refletiu a Morte.
Admirada, ela não queria ir embora daquele lugar – queria descobrir cada centímetro dele, o segredo de tamanha beleza, e contemplar aquele cenário todos os dias. Ela passou dias pensando, e durante esses dias, com muita tristeza, continuou a buscar e encaminhar almas para o seu descanso.
Então, lembrou-se dos anjos, e decidiu criar seus próprios ajudantes, que chamou de ceifeiros. Com o nascimento deles, a Morte voltou, radiante, para o local, e estabeleceu seu lar do outro lado do rio, para não conviver com os homens, e poder admirar em completa paz aquela paisagem onírica.
Passados alguns meses, porém, percebeu que a população do local matava os peixes, colhia as flores, derrubava árvores. Irada, atravessou o rio, com o intuito de colher todas as almas e ficar com a paisagem apenas para si. Porém, um de seus ceifeiros percebeu a situação, e convenceu-a a conversar com o líder do local e tentar um acordo.
O ancião e a Morte combinaram de que a população iria se retirar dos arredores do rio, e que todos estavam proibidos de tocar naquela paisagem novamente. E, assim, ela ficou com toda aquela paisagem intacta e para si, durante muitos anos.
Um dia, entretanto, uma menina, que não deveria ter mais de quatro anos, perdeu-se enquanto brincava e chegou às margens do rio. A Morte observou-a se aproximar e beber da água, então se aproximou para puxá-la para dentro e afogá-la. Novamente, o mesmo ceifeiro apareceu, e disse a ela que não era chegada a hora daquela criança, que ela não sabia do acordo, nem tinha más intenções.
Irritada, a Morte não se convenceu e apontou que não abriria nenhuma exceção ao acordo, ou correria o risco de mais pessoas encontrarem seu refúgio. Tranquilo, o ceifeiro lhe disse que, ao levar aquela criança, estaria levando consigo não apenas ela antes do tempo, mas um pedaço do coração de cada mãe do mundo.
Intrigada, a Morte pediu ao ceifeiro que explicasse, e ele explicou que, enquanto a Morte admirava aquele pequeno paraíso, haviam vários outros lugares no mundo para se descobrir, e contou-lhe de cataratas, cavernas, florestas pelos quais passou para levar aventureiros, mas que nenhum lugar lhe chamou tanta atenção como o coração humano, especialmente o coração de mãe.
A Morte ficou surpresa, mas não compadeceu: afogou a criança no lago e eliminou aquele ceifeiro, que ela considerou subversivo. Porém, pela primeira vez em anos, abandonou aquele espaço para investigar de onde ele tirou tal absurdo.
Em um primeiro momento, estranhou o mundo, pois passou muito tempo isolada em seu paraíso particular. Porém, quando acostumou-se novamente com os homens, tentou olhar além deles e pode ver que o ceifeiro não mentia: dentro do coração de cada mãe havia uma pequena lacuna, como se tivesse sido furado com uma agulha.
Curiosa, observou que as mães amavam tanto que seus corações compadeciam também pelos filhos dos outros, e que, quando aqueles filhos partiam, uma parte delas partia junto. A Morte, então, voltou, disfarçada, ao vilarejo, e perguntou sobre a mãe da criança, ao que descobriu que faleceu, no mesmo dia da filha, de parada cardíaca.
Sentindo-se culpada por ter arrancado a vida da criança, de um de seus ceifeiros e daquela mãe, a Morte procurou o ancião para abrir mão da trégua. Como sinal de arrependimento, foi pessoalmente buscar as almas em seus locais de descanso para levá-las de volta à Terra.
Ali, percebeu que a mãe e a filha brincavam juntas, e estavam em paz com seu destino, e que o ceifeiro estava em um campo vazio. Aproximou-se dele e ofereceu para que voltasse, mas assustou-se com a negativa. O que faria em um campo vazio como aquele? Com isso, o ceifeiro pediu à Morte para que olhasse para cima, e ela se encantou com a quantidade de estrelas, que reluziam como diamantes.
“Não são estrelas”, explicou o ceifeiro, “esses são os pedacinhos do coração de cada mãe. A cada noite esse céu cresce e fica mais e mais reluzente com o amor delas pelos filhos. Nesse amor é onde eu encontro o meu refúgio”.
Compadecida, a Morte voltou à Terra, mas nunca mais conseguiu olhar a vida da mesma forma. Recolheu todos os seus ceifeiros, e passou a ir ela mesma buscar todas as almas, para não perder mais do mundo.
À noite, subia no ponto mais alto de cada cidade para ver o reluzir do amor de todas as mães. A cada criança que levava, ia pessoalmente visitar aquele ceifeiro, apenas para contemplar o céu, e surpreender-se com a forma como ele parecia aumentar cada vez mais e mais, para receber todo aquele amor.
Então, a Morte passou a se emocionar, e eventualmente entendeu que passou a amar também. Ela criou uma janela, que permitia às mães olhar por seus filhos que ficaram no mundo dos vivos, e beijar-lhe a testa antes de dormirem.
Poucos dias depois que minha mãe contou essa história, seu coração, que sempre foi grande demais, não deu conta de tanto amor e decidiu parar. E eu fiquei me perguntando se ela olhava por mim, pela janelinha que a Morte criou. Às vezes, jurava que sentia seu beijo em minha testa antes de dormir.

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