quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Chapeuzinho Vermelho - Parte 1

Apesar do belo sol que raiava naquela manhã de terça-feira, Cíntia usava um capuz vermelho por causa do vento. Nas sombras, o frio fundia-se à forte ventania e a sensação de inverno rigoroso predominava. Era outono e todas as árvores perdiam suas folhas. Apenas algumas resistiam heroicamente, expondo pouquíssimos galhos ainda floreados.

Cíntia vivia em uma pequena cidade que, assim como todas, possuía sua própria lenda. Ali, era o bosque. Não havia estação em que suas árvores de galhos retorcidos, emaranhados e sem flores deixassem de transmitir a terrível sensação de que aquele lugar era sombrio. Ninguém ousava se aproximar da entrada do bosque, um pequeno espaço entre as árvores coladas, que mais parecia a passagem de um animal.

Pois Cíntia não se preocupava com o bosque naquela manhã. Ajudava o fato de que viveu em sua frente durante toda a vida e jamais ouvira um ruído, muito menos vira algo estranho, o que a fazia desacreditar as faláceas. O principal motivo, porém, era a carta de amor que segurava.

Custou-lhe tanto escrever aquela carta. Precisou refazê-la milhões de vezes, devido às mãos trêmulas. Depois mais tantas n vezes, porque desistia, de medo, e a amassava - então recriava coragem e precisava refazer o trabalho. Até possuía olheiras acumuladas ao longo daquela pesarosa noite.

Ele também morava em frente ao bosque, duas casas à esquerda de Cíntia. Ela jamais se esqueceu daquela noite na infância, em que aquele garoto grosseiro a empurrou e ele surgiu e a defendeu, como se não tivesse metade do tamanho do adversário. Ela podia escutar perfeitamente aquela voz infantil em sua cabeça, como se não fizesse dez anos. "Deixa ela em paz!".

Com o tempo, a gratidão eterna transformou-se em amor. Ele, de fato, continuava franzino. Usava óculos, pois a miopia passou a fazer parte da sua vida aos onze anos. Tinha um colete xadrez que parecia fazer parte de seu corpo. Ninguém entenderia porque a bela loura de olhos verdes o amava. Ademais, seriam um casal tão esquisito.

Acontece que ela o viu antes do previsto. Ele estava saindo de casa adiantado naquela terça-feira. O milimetricamente planejado encontro na escola foi pelos ares. Por nervosismo e descuido, seus braços se tornaram moles e a carta voou para um destino não menos insólito do que o bosque. No impulso, Cíntia correu para resgatá-la: e se chegasse às mãos de alguém?

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