domingo, 29 de julho de 2012

Bela Adormecida

Queria ser como os filmes. Desejava, literalmente, viver um romance. Uma hora e meia de encontros e desencontros água com açúcar, seguido de um "felizes para sempre". Ingênua, é como a classificavam. Mas quem, por céus, jamais quis as coisas assim, tão fáceis?

Uma vez, recebeu um buquê de flores. De quem? Não se sabe. Passou a se arrumar mais, procurar por seu príncipe encantado. Olhava para todos os homens e realizava minuciosa análise "será que é você?". Não soube, ele não apareceu.

Assim se passou uma semana. Ela começou a se desesperar, pois as flores murchavam rapidamente. Ninguém aparecia. Precisou jogar o buquê no lixo numa quarta-feira feia e chuvosa. Jogou e depois trancou-se no quarto, chorando alucinadamente. Era como se a perda daquelas flores significasse também a perda de seu amor.

No dia seguinte, porém, recebeu uma única rosa e um cartão. "Não busque por mim, nem mencione minha existência. Rasgue esse cartão, queime-o. Quero seu coração, não os seus olhos. Todos os dias mandarei uma flor a você. Guarde todas. Quando completar novamente um buquê com vinte e duas rosas, como o primeiro que lhe enviei, durma à noite com o novo buquê ao seu lado. Eu virei acordá-la pela manhã, com uma surpresa especial para você".

Novamente ela chorou, dessa vez de alegria. Todos os que zombaram sua obsessão pelos filmes... faltava tão pouco para ter o príncipe ao seu lado, um final feliz. Mais que um romance, aquilo era um conto de fadas.

Os dias passaram se arrastando. Às vezes não sabia o que fazer: o relógio não andava, parecia regredir no tempo. Quando o tão sonhado dia chegou, arrumou-se por horas, somente para dormir. Pensou em passar batom, mas e se o príncipe quisesse beijá-la? Achava que não conseguiria adormecer de tanta ansiedade, mas enganou-se: adormeceu tão rápido que sequer percebeu, ainda com o buquê em mãos.

Perto das três da manhã, ele chegou. Sem nenhuma luz para iluminar seu rosto, deslocava-se entre as trevas. Seu passo era lento, não como quem não deseja acordá-la, mas como quem esperou tanto por aquele momento que o tempo deixou de existir. Chegou perto do corpo e curvou-se para contemplá-la. No silêncio da mais profunda noite, era possível até ouvir seus batimentos. Sentiu o desejo tomar conta de si. Estava acontecendo. Ela estava ali, em sua frente.

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