Lembrava de quando era pequena, a primeira vez que viu. Uma bolinha pequena e marrom cheia de perninhas finas, imóvel como uma pedra no chão. Parecia algum brinquedo tão delicado...Como de costume para as crianças, ia pegar, quando sua mãe alertou-lhe tão séria como se brigasse "NÃO COLOCA A MÃO NELA É VENENOSA, MATA". Matava, aquela coisinha? Desconfiou da mãe e quis pegar mesmo assim, aquela moça cheia de perninhas. Esticou o braço e foi imediatamente interrompida pela mãe, que deu-lhe um tapa na mão e a levou pro "Cantinho do Castigo".
Um tempo depois, viu o pai pisando em uma igualzinha. Pisou, apertou e quando tirou o pé ela dançava. Ficou olhando maravilhada aquele corpinho amassado se mexer, mas não se aproximou: a mãe estava em casa.
Foi no aniversário de uma amiga que estabeleceram o primeiro contato. Era uma casa antiga e grande, difícil de manter a limpeza em dia. No teto da casa, as teias e elas lá, penduradas com pernilongos e algum bicho desconhecido. Pareciam tão macias, as teias.
Naquele momento quis ser também uma delas, cheia de perninhas, enrolada naquilo que parecia um algodão, tão fofo como uma nuvem, olhando tudo e todos despreocupadamente do teto.
Até que viu uma delas atacar alguém. Grande, preta, com pernas bem mais longas. Não era daquelas pequenas, delicadas. Pulou sem aviso sob um menino da festa, sabe-se lá vinda de onde. O menino gritou de dor.
Os adultos correram para ajudá-lo e mataram-na com pisadas violentas. "Uma aranha mordeu ele" "Meu Deus" "Tem que levar pro hospital". Aranha, era o nome dela. A menina achava que era a mãe das pequenininhas vindo se vingar pela morte das filhas, mas acabou ferindo um inocente e depois sendo pisada. Não dançava no chão porque se tornara uma pasta indefinida. Mesmo assim, passou a ter medo das mães e a festa em que estava acabou.
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