Começou assim: aula chata. Era daquelas em que se olha no relógio a cada 25 minutos e descobre que, na verdade, se passaram apenas 3. Maria ia ler um livro que deixara na bolsa enquanto a professora discorria sobre coisas que ela já sabia - quando o monitor do bloco abruptamente abriu a porta da sala.
- Maria?
Era a única Maria da sala e todos olharam para ela. Isso porque ninguém havia aberto a porta daquela forma. Sequer haviam aberto, pelo menos para chamar por alguém.
- Eu. - disse timidamente.
- Qual é seu sobrenome?
- Marquês Lima.
- É você mesma, é pra ligar pra sua mãe.
Começaram comentários bobos, mas ela não quis escutar. Seus pais jamais haviam ligado atrás dela durante a aula, ainda mais dessa forma. Foi para o lado de fora da sala e ligou. Secretária eletrônica.
O monitor estava falando que haviam chamado da cordenação, dizendo que ela deveria ligar para a mãe. Tentou de novo. Secretária mais uma vez. O desespero começou a tomar conta "Onde estava minha mãe?" "Aconteceu alguma coisa?" "Ela está bem?".
Mas se haviam pedido da cordenação para entrar em contato, era sinal que seu pai havia ido até lá, pois estava sem celular. E se era pra ligar para a mãe, sinal que ele não a encontrava. Mas como não? Ela sempre fica no carro.
Tentou ligar de novo. Mesma coisa. O desespero aumentava. Mas onde minha mãe poderia estar? Ela nunca sai do carro. Ela sempre fica no carro. Desceu as escadas rápido e no caminho resolveu correr. Olhou na reitoria e não havia ninguém, então continuou correndo, dessa vez para o carro.
Justo Maria, que sempre odiou educação física e tinha o mesmo preparo que uma lesma para corridas, teve que encarar a subida do estacionamento. Encarou ainda correndo.
Quando viu seus pais dentro do carro, seu pensamento mudou de foco: "E se ela mandou ligar porque acabou a bateria do celular, por que aconteceu alguma coisa com a vó?". Provável, sua avó sofria de Alzheimer e a idade lhe trazia os típicos problemas de pressão alta.
Chegou com dor, as pernas estavam desacostumadas de correr, os pulmões e o coração também. Sentia-se muito mais velha do que era e mal conseguia respirar. Tremia pelo corpo inteiro de nervosismo de tudo que imaginou ter acontecido. Apoiou-se no carro, desnorteada.
- Oi, cadê tua bolsa? - a mãe disse, notando que havia algo errado.
- O que que aconteceu? - Maria perguntou desesperada.
- Como assim? - o pai perguntou.
- Passaram o rádio lá na minha sala, o segurança veio falar que era pra ligar pra minha mãe, eu ligava, ligava, e só caía na secretária...
- O celular tá sem bateria filha - a mãe esclareceu.
Nesse momento ela estremeceu. Então havia mesmo algo errado.
- Aconteceu alguma coisa?
- Ninguém passou rádio, Maria. - esclareceu o pai.
- Disseram que tinham pedido da cordenação, falaram meu nome e sobrenome, não tinha como ter confundido, eu fiquei tão preocupada, e vocês não atendiam o celular
- Tava sem bateria filha - a mãe ressaltou, tentando acalmá-la.
- Falaram meu nome e sobrenome, Maria Marquês Lima, não tem como confundir, não se confunde um nome inteiro assim...
O pai, percebendo a situação, saiu do carro e disse que iria com ela para ver o que acontecia. De qualquer forma Maria precisava voltar para a sala buscar suas coisas, mas agora outro pensamento lhe passava pela cabeça "Quem sabia meu nome inteiro? E por que queriam que eu ligasse pra minha mãe? Vão fazer alguma coisa? É alguém que me conhece?" Pensou no livro que estava lendo, "Notícias de um sequestro" e passava-lhe pela cabeça que poderia ser uma tentativa de sequestro, mais rápido do que ela era capaz de repelir a mesma ideia.
Vasculhou os corredores dos dois primeiros andares antes de ver o mesmo monitor caminhando no último andar. Tentou acompanhá-lo e o encontrou no final do corredor esquerdo. Seu pai a seguia e foi quem falou com ele, perguntando de onde havia vindo a ordem para chamar Maria.
- Mas foi Maria Marquês Lima?
- O senhor quem é? - o monitor perguntou, ríspido.
- Sou o pai dela.
- Foi sim, Maria Marquês Lima, disseram lá da cordenação, você conseguiu falar com a sua mãe?
- Conseguiu porque ela foi pessoalmente, mas a mãe dela e eu não chamamos ela não.
- Mas chamaram sim, Maria Marquês Lima.
Nesse momento, Maria percebeu duas coisas. Primeiro, que estava quase que completamente incapacitada de falar. Segundo, que estava esquecendo seus pertences à toda hora enquanto pensava quem e porque teria anunciado seu nome dessa forma.
Entrou abruptamente na sala, pegou suas coisas e saiu. Mal ou sequer respondeu quem lhe perguntava o que havia acontecido. Não pensava direito.
Foram para o prédio da cordenação e conversaram com a mulher que fez a chamada. Era uma moça jovem e simpática e logo esclareceu o mal entendido.
- Não, eu disse Maria da Glória, repeti duas vezes ainda.
- Mas eu entendi Maria Marquês.
- Não, é Maria da Glória, ela faz dependência e o nome da mãe é Cláudia, o nome da sua mãe é Cláudia?
- Não, é Angélica.
O monitor ainda quis discutir com a secretária a respeito disso. Maria já nem pensava, estava quase caindo de alívio misturado com raiva. Ela sentiu tudo aquilo a toa. Foi embora recebendo desculpas que não acatou. Foi tudo um terror psicológico.
Autobiográfico, milete?
ResponderExcluirSó consigo pensar em mais uma pessoa que tenha um preparo físico tão bom assim, e essa eu sei que não foi, haha :)