Nos detestávamos desde a infância, por sermos tão diferentes. Para começar, enquanto eu ainda era criança, ela já era pré-adolescente, tinha preocupações que eu não entendia: beleza, fofocas, garotos. Adorava intrigas, chamar atenção; eu sempre fiquei na minha.Nos detestávamos desde a infância, por sermos tão parecidas. Como que aqueles cabelos escuros e enrolados, os olhos castanhos tão escuros que quase não dava pra ver a pupila, a pele branca e as feições poderiam ser tão semelhantes em duas pessoas com almas tão diferentes?
Estudamos por 10 anos no mesmo colégio, fomos da mesma sala uma única vez, mas nunca fomos amigas, nem conversamos direito. Nos detestávamos por sermos tão diferentes: uma jamais sucumbiria aos interesses da outra, a aproximação seria impossível, como amizade de gato e rato.
Mesmo assim, um dia, solidarizei com ela. Quando eu era adolescente, ela já era adulta. Mas tinha algo diferente, ela estava com coração partido. Nesse dia eu descobri duas coisas: primeiro, que ela tinha coração. Segundo, que era coração de menina.
Não lhe disse nada, apenas guardei seu segredo comigo. Também não deixamos de nos detestar, aquilo já era nosso. Mas eu percebi que não importa os desafetos que temos com as pessoas, elas continuam sendo pessoas. Naquele dia, tornei-me adulta também.
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